- TRM Labs diz que Bank Secrecy Act de 1970 não acompanha lavagem on-chain
- Coreia do Norte roubou US$ 2 bilhões em cripto em 2025 e mais US$ 600 mi em 2026
- Golpes com IA cresceram 500% e pig butchering custou US$ 35 bi a americanos
A pressão por uma reforma na principal lei antilavagem dos Estados Unidos ganhou um novo capítulo no Congresso. Ari Redbord, chefe global de políticas públicas da TRM Labs, depôs em 21 de maio no Subcomitê de Serviços Financeiros da Câmara para defender que o arcabouço atual virou letra morta diante de crimes financeiros movidos por cripto e inteligência artificial.
O argumento é direto, o Bank Secrecy Act foi assinado em 1970, sob o governo Nixon, quando rastrear uma transação suspeita levava semanas e lavar dinheiro exigia uma mala física embarcada em um avião. Hoje, fundos ilícitos circulam entre múltiplas blockchains em 24 a 48 horas, prazo incompatível com Suspicious Activity Reports que demoram 30 dias ou mais para serem processados pelos bancos.
Os números que sustentam o alerta
Redbord apresentou dados do Crypto Crime Report 2026 da própria TRM Labs. Hackers ligados à Coreia do Norte desviaram mais de US$ 2 bilhões em ativos digitais ao longo de 2025. Só nos primeiros meses de 2026, o mesmo grupo de agentes estatais roubou outros US$ 600 milhões.
O golpe “pig butchering”, que cultiva vítimas por semanas antes de drenar recursos, gerou perdas de US$ 35 bilhões nos EUA. No mesmo período, a atividade de fraudes potencializadas por IA disparou 500%, segundo o levantamento citado no depoimento.
Redbord pediu que o Congresso entregue a agências como FinCEN e FBI o que classificou de “ferramentas investigativas nativas de IA”, analítica on-chain em tempo real e modelos de machine learning capazes de operar na mesma velocidade dos criminosos. O Bank Policy Institute e o Atlantic Council, também presentes na audiência, endossaram a tese de uma revisão estrutural calcada em tecnologia. O posicionamento técnico da TRM Labs tem sido reforçado em sucessivas audiências em Washington.
Por que isso importa para o Brasil
O debate americano antecede movimentos que costumam respingar em exchanges brasileiras. Quando Washington aperta padrões de compliance, corretoras locais sentem o efeito via correspondentes bancários internacionais, custódia em dólar e onboarding de clientes globais. O Banco Central do Brasil já discute, na regulação do Marco Cripto, exigências de monitoramento on-chain semelhantes às defendidas por Redbord.
Há um precedente recente que conecta os dois lados. Em outubro, o Tesouro dos EUA sancionou endereços ligados ao Hezbollah que operavam com USDT na rede Tron operação detalhada na cobertura sobre sanções contra a rede de USDT. O caso mostrou que ferramentas de análise on-chain já entregam resultados, mas o filtro regulatório ainda passa por relatórios bancários defasados.
O componente IA é o que muda o jogo. Modelos generativos hoje produzem deepfakes de voz, perfis falsos em massa e roteiros de engenharia social personalizados a baixíssimo custo. A próxima fronteira são agentes autônomos capazes de mover fundos sem intervenção humana discussão que motivou aportes recentes no setor, como a rodada da Foundation Devices, focada justamente em autorização criptográfica para IA.
O que muda para investidores e plataformas
Se o Congresso americano acolher as recomendações apresentadas, corretoras e custodiantes de ativos digitais terão de absorver obrigações de reporte em tempo quase real. Isso significa investimento pesado em monitoramento transacional, integração com provedores de analítica on-chain e revisão de processos de KYC.
A cifra de US$ 35 bilhões em golpes de relacionamento empurra ainda SEC, CFTC e reguladores estaduais para dentro do debate sob a bandeira de proteção ao consumidor. O estado de Missouri já testou esse caminho ao processar a CoinFlip por golpes em idosos, sinalizando que ações cíveis estaduais devem se multiplicar.
Empresas como TRM Labs, Chainalysis e Elliptic tendem a capturar parte relevante do orçamento público e privado destinado à nova camada de defesa. Investidores devem esperar menos espaço para plataformas frágeis e mais taxas ligadas a exigências reforçadas de compliance.
