- Andrew Bailey vê stablecoins dos EUA como risco a outras jurisdições em crises
- Reino Unido prepara modelo dual com Banco da Inglaterra e FCA na supervisão
- USDT e USDC dominam mercado global e concentram exposição em dólar
O presidente do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, elevou o tom contra as stablecoins emitidas nos Estados Unidos. Em sua avaliação, esses tokens podem se transformar em vetor de instabilidade financeira para outros países durante períodos de estresse global.
Bailey acumula um cargo que amplia o peso da fala. Além de comandar a autoridade monetária britânica, preside o Financial Stability Board (FSB), órgão que coordena a regulação financeira entre as economias do G20. A crítica, portanto, não é apenas doméstica projeta-se sobre a agenda regulatória de meia centena de jurisdições.
O alerta foi feito em declarações públicas do governador e mira um ponto técnico específico, a fragilidade dos mecanismos de resgate. Stablecoins americanas com lastro pouco transparente ou regras de redenção frouxas, segundo Bailey, podem migrar em massa para centros financeiros como Londres quando investidores buscarem refúgio.
O problema do resgate
A preocupação central é o que ocorre se o detentor de uma stablecoin tentar converter o token de volta em dólares ou em qualquer outra moeda sob pânico de mercado. Sem garantia de liquidez imediata, o investidor pode descarregar o ativo em outra jurisdição, criando fluxos súbitos de capital.
Esses fluxos têm efeitos colaterais conhecidos. Distorcem taxas de câmbio, drenam liquidez de mercados domésticos e ampliam volatilidade em ativos que nada têm a ver com o token original. É o tipo de contágio transfronteiriço que reguladores tentam evitar há décadas.
O tamanho do mercado dá escala ao risco. USDT, da Tether, e USDC, da Circle, concentram a maior parte do volume global de stablecoins, e ambas são denominadas em dólar. Qualquer episódio de estresse nesses tokens reverberaria no sistema financeiro mundial.
O modelo britânico em construção
Bailey não se limitou à crítica. O Banco da Inglaterra trabalha em um arcabouço próprio para stablecoins denominadas em libra, com supervisão dupla envolvendo a autoridade monetária e a Financial Conduct Authority (FCA). Emissores considerados sistemicamente relevantes ficariam sob jurisdição compartilhada.
O ponto mais sensível do plano britânico é o acesso a linhas de liquidez do banco central. Na prática, emissores sistêmicos teriam respaldo do BoE para honrar resgates em momentos de pânico exatamente o vácuo que Bailey aponta nas regras americanas.
Divergência com EUA e paralelo europeu
Nos Estados Unidos, o GENIUS Act tramita no Congresso e propõe supervisão federal para stablecoins lastreadas em dólar. O texto avança, mas o desenho americano é mais permissivo que o britânico no que diz respeito a backstops em crise. A divergência tende a se aprofundar nos próximos meses.
O movimento britânico ecoa posição semelhante adotada na zona do euro. Christine Lagarde, presidente do BCE, já manifestou resistência a stablecoins em euro sob argumentos parecidos. Forma-se, no eixo Londres-Frankfurt, uma narrativa regulatória que enxerga os tokens dolarizados como ameaça à soberania monetária europeia.
Para o investidor brasileiro, o debate tem leitura prática. O Banco Central do Brasil finaliza regras para prestadores de serviços de ativos virtuais, e a circulação de stablecoins nas exchanges locais onde USDT é o par dominante para a maioria das altcoins entra no radar de Brasília. Movimentos coordenados entre BoE, BCE e FSB pressionam o BC a alinhar exigências de transparência sobre lastro e regras de resgate, especialmente para emissores estrangeiros que operam via corretoras nacionais.
O contexto também encontra eco em iniciativas privadas. A BlackRock apresentou sete recomendações ao OCC sobre stablecoins, e a Anchorage Digital cita fila de 20 bancos querendo emitir tokens próprios. Quanto maior a base de emissores, mais relevante se torna o desenho de redes de segurança defendido por Bailey.

