- Trump Media retira pedidos de ETF de Bitcoin e Bitcoin-Ethereum na SEC
- Morgan Stanley pressiona setor com taxa de apenas 0,14% no MSBT
- ETFs de Bitcoin à vista acumulam US$ 57,4 bilhões desde janeiro de 2024
A holding por trás da rede social de Donald Trump abandonou, ao menos por enquanto, sua tentativa de entrar no mercado de fundos de cripto à vista. A Trump Media & Technology Group, controladora do Truth Social, protocolou junto à SEC a retirada dos pedidos de registro de dois ETFs: um de Bitcoin à vista e outro combinando BTC e ETH.
No documento enviado ao regulador, a companhia afirma que decidiu “retirar a declaração de registro e não prosseguir com a oferta pública neste momento”. A justificativa oficial fala em mudança de estratégia regulatória, não em desistência do segmento.
A versão da empresa e a leitura do mercado
Steve Neamtz, presidente da Yorkville America — patrocinadora e gestora dos fundos do Truth Social —, disse que a saída do framework do ’33 Act dá mais espaço para criar produtos diferenciados. Segundo ele, a estrutura do ’40 Act permitiria estratégias “que não são possíveis” no formato anterior, usado pelos ETFs spot de Bitcoin já listados.
A leitura do mercado é menos generosa. O analista da Bloomberg James Seyffart publicou no X que o movimento reflete um “cenário mais competitivo” para fundos de Bitcoin à vista. O ponto central é o lançamento do MSBT, o ETF do Morgan Stanley que estreou em abril e já reúne US$ 266,72 milhões em ativos líquidos.
Guerra de taxas aperta novos entrantes
O Morgan Stanley entrou cortando preços. O MSBT cobra apenas 0,14% ao ano, abaixo do Grayscale Bitcoin Mini Trust (0,15%) e dos pesos-pesados do setor: o iShares Bitcoin Trust da BlackRock e o Wise Origin Bitcoin Fund da Fidelity, ambos em 0,25%. A diferença parece pequena no papel, mas decide para onde vai o fluxo institucional.
Para um produto novo, sem marca consolidada em gestão de ativos, esse piso de taxa é quase intransponível. Cada ponto-base que o Truth Social cobrasse a mais teria de ser justificado em diferencial de gestão — algo difícil em um veículo que apenas custodia Bitcoin via parceiros. Não por acaso, dados da SoSoValue mostram que os ETFs spot de BTC nos EUA acumulam US$ 57,4 bilhões em entradas líquidas desde janeiro de 2024, mas a fatia do bolo está cada vez mais concentrada nos primeiros entrantes.
O fio político da história
A retirada acontece em um momento delicado para a relação da família Trump com o setor cripto. O presidente já emprestou seu nome a coleções de NFTs, ao memecoin TRUMP e à plataforma DeFi World Liberty Financial. Cada novo produto financeiro associado ao clã reabre o debate sobre conflito de interesses dentro da Casa Branca.
No ano passado, um relatório dos democratas da Comissão Judiciária da Câmara classificou o conjunto desses negócios como “a operação de startup cripto mais corrupta do mundo”. A semana passada trouxe novo capítulo: senadores democratas tentaram introduzir dezenas de emendas ao projeto de estrutura de mercado cripto, várias delas voltadas a restringir empreendimentos do presidente e familiares. O recuo do ETF reduz, ainda que pontualmente, uma frente de atrito.
O que o investidor brasileiro tira disso
Para quem opera no Brasil, o episódio reforça uma tendência que já se desenhava: o mercado de ETFs de Bitcoin nos EUA virou um jogo de escala, em que custódia barata e marca global decidem o resultado. Isso afeta diretamente os fundos brasileiros que espelham o IBIT da BlackRock ou que compõem carteiras com BTC indireto via B3.
Enquanto o segmento global se consolida, o varejo dá sinais de fadiga — basta ver a queda de 73% nos aportes de varejo na Binance. Em paralelo, o fluxo institucional segue ditando o ritmo, com episódios como a recente saída de US$ 649 milhões em um único dia dos ETFs americanos. O recuo do Truth Social, nesse contexto, é mais um indicador de que a janela para novos entrantes está se fechando — e não um juízo sobre o ativo em si.