- Stablecoins lastreadas em reais atingem US$ 1 bilhão em volume mensal e colocam o Brasil atrás apenas do mercado europeu.
- Integração entre Pix, blockchain e meios de pagamento globais impulsiona a adoção de moedas digitais em moeda local.
- Relatório da Dune Analytics e Visa aponta que o real se consolida como uma das principais referências globais em stablecoins.
As stablecoins lastreadas em real brasileiro ultrapassaram a marca de US$ 1 bilhão em volume mensal de transações. Dessa forma, consolidaram o Brasil como o segundo maior mercado de moedas digitais locais do mundo. O país aparece atrás apenas das stablecoins denominadas em euro.
Ele já responde por aproximadamente 10% de toda a atividade global desse segmento, segundo o relatório Beyond Dollarization: The Rise of Local Currency Stablecoins, produzido pela Dune Analytics em parceria com a Visa.
Os números mostram uma transformação acelerada. Em janeiro de 2023, as stablecoins vinculadas ao real movimentavam cerca de US$ 180 milhões por mês. Em fevereiro de 2026, o volume alcançou aproximadamente US$ 1 bilhão.
Assim, o crescimento ocorreu em paralelo à expansão do mercado global de stablecoins em moedas locais. Esse mercado avançou de US$ 600 milhões para US$ 10 bilhões mensais no mesmo período. Apesar da evolução generalizada, poucas moedas ganharam participação de mercado tão rapidamente quanto o real brasileiro.
O avanço acontece em um momento em que empresas, plataformas financeiras e usuários buscam alternativas para reduzir a dependência do dólar em pagamentos internacionais, remessas e liquidações financeiras. Além disso, ele também reflete a busca por instrumentos mais eficientes para movimentação de recursos entre diferentes países. Isso acontece sem a necessidade de intermediários tradicionais.

Stablecoins
Para Fábio Plein, diretor regional da Coinbase para as Américas, o crescimento das stablecoins em real mostra que esses ativos começam a assumir um papel semelhante ao de uma infraestrutura financeira. Segundo ele, a combinação entre blockchain, integração bancária e o sistema Pix permitiu que a tecnologia passasse a operar nos bastidores. Tudo isso ocorre sem exigir mudanças significativas na experiência dos usuários.
Os dados também indicam uma expansão consistente da base de usuários. O número de carteiras que armazenam stablecoins em real cresceu de forma contínua nos últimos três anos. Elas passaram a representar parcela relevante dos mais de 1,2 milhão de endereços que utilizam stablecoins em moedas locais em todo o mundo. O total de remetentes mensais avançou de cerca de 6 mil para 135 mil entre janeiro de 2023 e fevereiro de 2026. Esses números evidenciam que o uso desses ativos já ultrapassa o universo de investidores especializados.
O relatório dedica atenção especial à BRLA, stablecoin emitida pela Avenia e lastreada em depósitos bancários e títulos públicos brasileiros. De acordo com a pesquisa, o ativo registrou crescimento expressivo ao longo dos últimos doze meses. Além disso, o volume movimentado na blockchain superou US$ 400 milhões em fevereiro de 2026. Enquanto isso, a infraestrutura de pagamentos da companhia, a Avenia Pay, ampliou seu volume mensal de US$ 64 milhões para US$ 440 milhões em apenas um ano.
Stablecoin e Pix
Um dos fatores apontados para essa expansão é a integração direta com o Pix. O estudo destaca que a conexão entre o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, stablecoins e redes globais de pagamentos permitiu criar uma ponte entre o sistema financeiro tradicional e a infraestrutura blockchain. Na prática, usuários podem converter recursos depositados via Pix em ativos digitais. Além disso, eles podem utilizá-los em pagamentos internacionais sem perceber a complexidade tecnológica existente por trás da operação.
O caso do aplicativo Picnic ilustra esse movimento. Segundo a Dune Analytics, quase 1.400 usuários movimentaram cerca de US$ 1,6 milhão apenas em janeiro de 2026. Estes valores foram movimentados por meio de uma estrutura que converte depósitos em reais para BRLA. Posteriormente, converte para USDC e disponibiliza o saldo para uso em cartões da bandeira Visa. Todo o processo ocorre de forma automatizada.
Assim, embora o ambiente regulatório brasileiro tenha contribuído para o crescimento do setor, o relatório observa que novas exigências previstas nas normas do Banco Central também podem impor desafios operacionais às empresas do segmento.
Ainda assim, os pesquisadores concluem que as stablecoins locais deixaram de atuar apenas como instrumentos ligados ao mercado de criptomoedas. Elas passaram a desempenhar funções ligadas a pagamentos, tesouraria corporativa, remessas internacionais e operações cambiais. Nesse cenário, o real desponta como uma das moedas que mais rapidamente convertem a promessa da tokenização financeira em uso cotidiano.