- BCE vê risco de desintermediação bancária com avanço de stablecoins
- Isabel Schnabel alerta para corridas e impacto no mercado de títulos
- CLARITY Act enfrenta resistência de Jamie Dimon no Congresso americano
O Banco Central Europeu colocou as stablecoins no centro do debate regulatório global. Em discurso na conferência internacional do Banco da Coreia, a integrante do conselho executivo do BCE, Isabel Schnabel, listou riscos concretos para o sistema bancário e para a condução da política monetária caso esses ativos ganhem tração como meio de pagamento.
O recado europeu chegou em um momento sensível. Nos Estados Unidos, o Congresso prepara nova audiência sobre o CLARITY Act, projeto que pretende estruturar a regulação cripto no país. Schnabel não mencionou o projeto americano, mas destacou brechas semelhantes às criticadas pelo setor bancário tradicional.
O medo da desintermediação bancária
A executiva afirmou que a adoção em larga escala de stablecoins pode disparar uma “nova onda de desintermediação bancária”. A lógica é direta, se famílias e empresas migrarem depósitos tradicionais para tokens lastreados em dólar, os bancos perdem a base de funding mais barata e estável que possuem.
O resultado, segundo Schnabel, seria uma dependência maior de fontes atacadistas de financiamento historicamente mais voláteis e sensíveis a choques. Em uma crise, esse é o tipo de combustível que acelera quebras, como ficou claro no episódio do Silicon Valley Bank em 2023, justamente após um movimento de saques digitais relâmpago.
Outro alerta foi para o risco de corrida sobre as próprias stablecoins. Quando há dúvida sobre a qualidade das reservas que lastreiam o token, os emissores podem ser forçados a vender títulos públicos em massa para honrar resgates. O efeito colateral atingiria o mercado de Treasuries e a renda fixa global uma preocupação que ecoa o que o FMI já vinha sinalizando desde o colapso da TerraUSD.
Domínio do dólar e pressão sobre o euro
Schnabel também tocou em um ponto político delicado. A esmagadora maioria das stablecoins relevantes USDT, USDC e similares é atrelada ao dólar americano. A executiva vê nesse desenho um vetor de reforço da hegemonia da moeda dos EUA no sistema financeiro internacional, em linha com observações recentes do diretor do Fed Christopher Waller.
Para a Europa, é um problema estratégico. O bloco trabalha há anos no euro digital justamente para reduzir essa dependência. No Brasil, o efeito é mais palpável, dados públicos mostram que o real brasileiro tokenizado já figura entre os pares de stablecoin mais movimentados do mundo, segundo levantamento da própria indústria, mas o volume ainda é fração mínima do que circula em USDT por aqui.
CLARITY Act e a briga com Jamie Dimon
Do outro lado do Atlântico, o setor bancário americano também resiste. Jamie Dimon afirmou que combaterá a versão atual do CLARITY Act durante sua tramitação no Comitê Bancário.
“Vamos lutar; se perdermos, sobreviveremos”, disse o executivo, em declarações reproduzidas pela própria instituição.
Dimon defende que, se empresas cripto operam como bancos, devem seguir as mesmas regras. O alvo central é o capítulo sobre rendimentos em stablecoins que poderia permitir aos emissores remunerar usuários, drenando depósitos bancários. Ele também classificou as exigências de combate à lavagem de dinheiro (AML) e à Bank Secrecy Act como “inadequadas” no formato atual.
O embate ocorre enquanto Donald Trump pressiona o Congresso por uma legislação cripto “à prova do futuro”, capaz de sobreviver a governos hostis ao setor. A movimentação foi detalhada em discurso recente do presidente americano.
Para o investidor brasileiro, a disputa importa por dois motivos. Primeiro, o texto final do CLARITY Act definirá regras para Tether e Circle, impactando a liquidez global. Segundo, o Banco Central do Brasil tem acompanhado o debate externo enquanto estrutura suas próprias regras para VASPs, com tendência a importar parte do arcabouço internacional sobre stablecoins.