- Trump promete codificar marco cripto blindado contra próximos governos
- CLARITY Act passou na Câmara em julho e trava no Senado
- Bitcoin recua para US$ 73.505 após declaração no Truth Social
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a se posicionar sobre o setor cripto e prometeu transformar em lei um marco regulatório capaz de resistir a futuras gestões hostis ao mercado. A declaração, feita no Truth Social, faz referência direta ao Digital Asset Market Clarity Act (CLARITY Act), projeto que tramita no Senado norte-americano há meses.
Segundo o republicano, a futura legislação criará uma “estrutura de mercado de ativos digitais à prova do futuro”. A expressão repete jargão usado pelo presidente da SEC, Paul Atkins, em outubro, ao defender que decisões regulatórias sobre cripto fossem desenhadas para sobreviver a mudanças de comando na agência.
Foi a segunda manifestação pública de Trump sobre o tema na mesma semana. A anterior tratou da disputa entre estados e a CFTC sobre mercados de previsão como Kalshi e Polymarket, plataformas em que Donald Trump Jr. atua como conselheiro.
O que trava o CLARITY Act no Senado
O texto foi aprovado pela Câmara dos Representantes em julho de 2025. No Senado, passou por markups nos comitês de Agricultura, em janeiro, e Bancário, em maio. Desde então, a tramitação emperrou.
Três fatores explicam a paralisia: o shutdown recente do governo americano, resistências de bancos tradicionais e crítica de parte do setor cripto ao desenho do projeto. A maioria republicana no Senado é apertada, e a aprovação depende de votos democratas — vários deles condicionam apoio à inclusão de regras éticas explícitas.
O ponto sensível envolve a própria família presidencial. Trump e seus filhos têm laços com projetos de memecoins, com a plataforma World Liberty Financial, com a stablecoin USD1 e com uma mineradora de Bitcoin. Senadores democratas questionam se o presidente legislaria sobre um setor no qual a família tem participação financeira direta.
Reação do mercado e Bitcoin em queda
A promessa de “nunca decepcionar o cripto”, feita por Trump no início da semana, não sustentou preços. O Bitcoin recuou de US$ 74 mil para abaixo de US$ 73 mil nas horas seguintes à publicação. No momento desta reportagem, o ativo é negociado a US$ 73.505, ou R$ 371.840, com queda de 1,1% em 24 horas.
A leitura é de que o mercado já precifica avanços regulatórios concretos, não declarações em redes sociais. Em julho, a aprovação do projeto na Câmara coincidiu com o ciclo de alta que levou o BTC à máxima histórica acima de US$ 120 mil. Agora, com o ativo em correção há semanas, sinalizações verbais perdem força como gatilho.
Impacto para o investidor brasileiro
A regulação americana funciona como referência para autoridades em outros mercados. No Brasil, o Banco Central conduz a regulamentação de prestadores de serviços de ativos virtuais sob a Lei 14.478/2022, com consultas públicas em andamento. A CVM, por sua vez, define a fronteira entre tokens classificados como valores mobiliários e os demais.
Caso o CLARITY Act seja aprovado, define-se uma divisão de competências entre SEC e CFTC que pode servir de modelo. Exchanges como Mercado Bitcoin, Foxbit e Bitso, além das operações locais de Binance e Coinbase, ganhariam previsibilidade jurídica nos corredores transfronteiriços. O contrário também vale: derrota do projeto em Washington atrasaria a chegada de produtos institucionais, como novos ETFs spot de altcoins, ao mercado brasileiro.
Andrew Forson, presidente da DeFi Technologies, observou em entrevista anterior que dificilmente um futuro chair da SEC conseguiria “reverter integralmente” políticas já codificadas em lei. Poderia, no entanto, tornar a aplicação tão onerosa para os reguladores a ponto de esvaziar o efeito prático. É justamente esse caminho que Trump diz querer bloquear. A publicação no Truth Social não detalhou o cronograma esperado para a votação no plenário do Senado.