- Banco Central exige auditoria independente para licenciar exchanges de cripto no país
- Auditores precisam ser registrados na CVM e revisar PLD, custódia e governança
- Brasil movimentou cerca de US$ 318 bilhões em cripto entre 2024 e 2025
O Banco Central do Brasil incluiu a apresentação de relatório de auditoria independente como pré-requisito para aprovação e renovação de licenças de prestadoras de serviços de ativos virtuais. A mudança coloca uma camada adicional de verificação sobre exchanges, custodiantes e demais empresas reguladas pela autoridade monetária.
Pelas regras publicadas, qualquer empresa que solicitar autorização ou renovar registro precisará submeter o parecer assinado por auditor habilitado. Esses profissionais devem estar registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o que cria um filtro duplo entre a prestadora e o regulador.
O que os auditores vão checar
Antes de liberar a autorização, o BC quer ver no relatório uma análise dos controles de prevenção à lavagem de dinheiro, das rotinas de combate ao financiamento do terrorismo, da segregação dos ativos de clientes, do sistema interno de gestão de risco e dos programas de compliance aplicados aos funcionários. Falhas nesses pontos podem inviabilizar o pedido.
Para quem já opera no país, a regra muda a lógica do processo. A licença deixa de depender apenas da documentação enviada ao regulador e passa a exigir validação externa do funcionamento real dos controles internos. É um modelo próximo ao adotado por bancos tradicionais e instituições de pagamento.
O Banco Central não divulgou estimativa de custo. Consultores ouvidos pelo mercado falam em despesas que podem ir de dezenas a centenas de milhares de dólares por revisão, dependendo do volume transacionado, do modelo de custódia e do porte da empresa. A conta tende a ser muito mais pesada para casas que operam self-custody mista, derivativos e stablecoins.
Corretoras pequenas sentem o peso primeiro
Exchanges globais com balanço robusto absorvem esse custo sem grande impacto operacional. Plataformas menores e startups nacionais, não. O esforço de adequação se soma à obrigação de cumprir regras de custódia, supervisão de stablecoins, Travel Rule e monitoramento de carteiras autocustodiadas que entraram em vigor ao longo de 2025.
O cronograma também aperta. As prestadoras já ativas têm prazo até outubro de 2026 para se enquadrar no novo arcabouço. Quem chegar ao fim do período sem o parecer de auditoria registrado não consegue renovar autorização. Na prática, isso pode acelerar uma onda de consolidação entre corretoras locais, com fusões, vendas e desligamentos voluntários do mercado brasileiro.
O endurecimento também afeta o discurso comercial do setor. Casas que conseguirem o selo de auditoria provavelmente vão usá-lo como ativo de marketing junto a clientes institucionais e tesourarias corporativas, segmento em expansão depois da regulamentação das stablecoins lastreadas em reais.
Brasil segue mercado prioritário apesar da regra
Mesmo com o custo regulatório maior, o país continua atrativo. Relatório da Chainalysis indica que o Brasil movimentou cerca de US$ 318 bilhões em transações cripto entre 2024 e 2025, colocando o mercado local entre os maiores do mundo. Esse volume justifica investimento em conformidade por parte de gigantes globais.
A novidade chega em um momento ruim para o mercado. O Bitcoin opera próximo de US$ 67.247, queda de 6% em 24 horas e perto de 10% na semana. O Ethereum recuou para US$ 1.912, e o XRP cai a US$ 1,22, todos pressionados por saques em ETFs spot e liquidações. A correção encontra eco no Brasil, onde o BTC é negociado a R$ 337.782, com dólar a R$ 5,02.
Há ainda o pano de fundo regulatório. O Banco Central já havia sinalizado a intenção de apertar o cerco sobre VASPs e, em maio, vetou o uso de criptoativos nos canais oficiais de pagamentos transfronteiriços. As duas medidas, somadas à queda recente do Bitcoin, desenham um ambiente em que apenas operações com governança sólida sobrevivem ao próximo ciclo no país.