- Cathie Wood rebate temor de alta de juros após payroll de 172 mil vagas
- Fundadora da ARK aposta em produtividade da IA como força deflacionária
- BNP Paribas projeta três altas de juros do Fed a partir de dezembro de 2025
A fundadora da ARK Invest, Cathie Wood, saiu em defesa de uma tese contrária ao consenso de Wall Street nesta sexta-feira. Em publicação no X, ela afirmou que o mercado leu errado o relatório de empregos dos Estados Unidos e que o próximo movimento do Federal Reserve tende a ser de corte, não de alta de juros.
O posicionamento veio horas depois da divulgação do payroll de maio, que mostrou criação de 172 mil vagas contra expectativa de 88 mil. Os meses anteriores ainda foram revisados em 93 mil postos a mais. Salários subiram 0,3%. Mesmo assim, ações e cripto recuaram, com o Bitcoin negociado a US$ 60.866 (cerca de R$ 316,4 mil) e o Ethereum a US$ 1.560, queda de 3,1% em 24 horas.
Produtividade de 3% anula pressão salarial
Wood argumenta que o investidor confundiu força do emprego com aceleração inflacionária. Pelos números que ela cita, a produtividade norte-americana cresce perto de 3%, enquanto o custo unitário do trabalho avança apenas 0,5%. A diferença, segundo a gestora, descreve uma economia em expansão saudável, não superaquecida.
A leitura encontra eco no mercado de Treasuries. A curva de juros americana segue achatada apesar do choque do petróleo no último ano. Em ciclos anteriores de choque energético, lembra Wood, a curva ficava mais inclinada e as expectativas de inflação subiam rápido. Desta vez, o movimento é o oposto.
O motivo, na visão dela, é tecnológico. A adoção de inteligência artificial já estaria empurrando ganhos de produtividade em vários setores e funcionaria como força deflacionária estrutural. Wood chegou a afirmar que a inflação pode “entrar em território negativo até o fim do ano” caso a tensão com o Irã arrefeça e o petróleo recue.
BNP Paribas projeta três altas a partir de dezembro
A tese contraria casas tradicionais. O BNP Paribas divulgou recentemente projeção de três aumentos de juros pelo Fed a partir de dezembro de 2025, justamente pelo risco de reaceleração de preços. O contraste com a visão de Wood mostra a divisão atual em mesas de renda fixa.
A gestora também atacou o que chamou de “erro histórico” do Fed em 2022, quando o banco central elevou os juros de forma agressiva para conter uma inflação que, segundo ela, era majoritariamente fruto de gargalos de oferta.
“Não acreditamos que a próxima geração de formuladores de política monetária queira repetir esse erro”, escreveu.
Wood ainda enxergou sinal de alta nos ativos de risco caso Kevin Warsh, nome apoiado por Donald Trump, assuma a presidência do Fed.
“O ouro fez pico no dia da indicação de Warsh. O trade da inflação pode já estar para trás”, afirmou.
Dólar forte pressiona cripto e real
O cenário desenhado por Wood crescimento acelerando, inflação caindo, juros recuando e dólar fortalecendo tem leitura ambígua para cripto. Historicamente, fortalecimento do dólar pressiona ativos de risco no curto prazo, e o recuo recente do Bitcoin abaixo dos US$ 61 mil acompanha essa dinâmica. Operadores também monitoram o aumento de fluxo vendedor institucional, com a BlackRock liquidando posições no IBIT e baleias depositando milhares de BTC na Binance.
Para o investidor brasileiro, o ponto sensível é o câmbio. Com o dólar a R$ 5,1711, qualquer fortalecimento adicional encarece a entrada em ativos dolarizados via exchanges locais e amplia o desconto entre preços em reais e a paridade global. Por outro lado, um eventual ciclo de cortes de juros nos EUA, como prevê Wood, tende a reabrir apetite por risco e beneficiar cripto a partir de 2026.
A publicação completa de Wood está disponível em sua conta oficial no X. O próximo evento monitorado pelo mercado é a reunião do FOMC, que deve oferecer pistas mais claras sobre a direção dos juros americanos no segundo semestre.