- Ouro à vista sobe 1,4% na sexta-feira e acumula alta semanal de 2,3%
- Payroll dos EUA veio a 57 mil vagas em junho, muito abaixo do esperado
- Metal ainda opera 22% abaixo da máxima histórica registrada em janeiro
O ouro encerrou a sexta-feira, 3 de julho, com valorização de 1,4% e caminha para o primeiro ganho semanal em cinco semanas, com avanço acumulado de 2,3%. O movimento veio depois que o payroll dos Estados Unidos registrou apenas 57 mil vagas em junho, número muito abaixo das projeções e suficiente para fazer o mercado recalcular apostas sobre o próximo passo do Federal Reserve.
Para Nigel Green, CEO da consultoria financeira Devere Group, o rally do ouro não é apenas uma reação técnica. Ele desafia uma das teses mais consensuais do ano, a de que a taxa de juros americana permaneceria elevada por período prolongado.
“Acredito que o mercado precificou de forma equivocada o próximo movimento do Fed”, afirmou o executivo em comunicado publicado pela consultoria.
Trade mais lotado de 2026 começa a rachar
A tese do higher-for-longer juros altos por mais tempo dominou o posicionamento de fundos globais nos últimos meses. Green descreve o consenso como uma das “posições macro mais lotadas do mundo”, combinação de dólar forte, taxas elevadas e resiliência econômica dos EUA.
O ouro pagou o preço dessa narrativa. O metal registrou o pior desempenho trimestral em 13 anos entre abril e junho e ainda opera cerca de 22% abaixo do recorde histórico alcançado em janeiro. Foi justamente essa compressão que abriu espaço para o movimento inverso.
“O ouro não está subindo porque investidores subitamente querem segurança”, explicou Green.
Segundo ele, parte do mercado começou a suspeitar que a maior operação macro do ano “foi longe demais”. A leitura é de que o rally reflete revisão de tese, não fuga defensiva.
Payroll de 57 mil vagas muda o jogo
O dado de emprego divulgado nesta semana funcionou como gatilho. Com criação de vagas bem abaixo do esperado e revisões negativas nos meses anteriores, contratos futuros passaram a precificar aperto adicional menor por parte do Fed. O detalhamento do relatório e a reação imediata dos ativos de risco já foram destrinchados em análise do payroll publicada pelo BitNotícias.
Green vai além do impacto sobre o ouro. Se os próximos indicadores confirmarem a desaceleração, investidores não vão apenas descartar mais uma alta de juros passarão a redesenhar toda a trajetória de política monetária para os próximos 12 a 18 meses. Esse tipo de recalibragem costuma ser abrupto quando o posicionamento está concentrado.
Bitcoin e cripto no radar do recálculo
A releitura do ciclo de juros americano tem tradução direta para o mercado cripto brasileiro. O Bitcoin negocia a US$ 62.382 (R$ 324.523), com alta de 1,5% em 24 horas, enquanto o Ethereum opera a US$ 1.745 (+2,2%). Historicamente, sinais de afrouxamento monetário nos EUA beneficiam ativos de duração longa e escassez programada categoria em que BTC e ouro dividem terreno.
Para o investidor local, o efeito é duplo. Um Fed mais cauteloso tende a enfraquecer o dólar contra emergentes, o que pressiona o câmbio no Brasil o par USD/BRL fechou a R$ 5,1689. Câmbio mais baixo reduz o custo em reais de estratégias dolarizadas via ETFs e stablecoins, mas também comprime o retorno de quem usa cripto como hedge cambial.
Metaplanet e tesourarias corporativas observam
Empresas com estratégia de tesouraria em Bitcoin acompanham o desenrolar. A japonesa Metaplanet, que atingiu 43 mil BTC e virou a terceira maior tesouraria corporativa do mundo, construiu boa parte da posição apostando exatamente no cenário de reflação global ou seja, retorno de liquidez após ciclo restritivo.
Green alerta que o jogo não está definido. O payroll de junho pode ser leitura isolada ou marco de virada. Novos dados de inflação, orientação da diretoria do Fed e o comportamento dos rendimentos dos Treasuries nas próximas semanas darão o veredito sobre até onde vai o desmonte do trade “higher-for-longer”.