- Payroll de junho cria apenas 57 mil vagas, quase metade da previsão do consenso
- Desemprego cai a 4,2% com saída de 720 mil pessoas da força de trabalho
- Chance de alta de juros em julho despenca de 75% para menos de 20%
O relatório de emprego dos Estados Unidos referente a junho veio bem abaixo das projeções e mudou abruptamente as apostas sobre o próximo passo do Federal Reserve. Foram criadas apenas 57 mil vagas não-agrícolas no mês, contra estimativa mediana de 110 mil apurada pela Reuters. O payroll divulgado nesta quinta-feira também trouxe revisões para baixo nos dois meses anteriores.
O dado de maio foi cortado de 172 mil para 129 mil, enquanto abril perdeu outros 31 mil postos e ficou em 148 mil. A publicação foi antecipada em um dia devido ao feriado de sexta-feira, quando os EUA celebram os 250 anos da independência.
A leitura imediata dos mercados foi de alívio para os ativos de risco. Bitcoin subiu 4,2% nas últimas 24 horas e negocia a US$ 61.867, ou cerca de R$ 321,7 mil. Ethereum avança 7,3%, cotado a US$ 1.709, e Solana ganha 7,1%, a US$ 81,16. XRP e BNB também operam no azul.
Aposta em alta de juros em julho desaba
Antes do relatório, os contratos futuros de juros de curto prazo precificavam uma probabilidade de cerca de 75% de um novo aperto do Fed na reunião de setembro. Depois do payroll, essa probabilidade caiu para aproximadamente 60%. Para julho, a aposta em alta ficou abaixo de 20%.
O banco central americano manteve a taxa básica de juros entre 3,50% e 3,75% na última decisão, mas as projeções trimestrais indicavam disposição para elevar o custo do crédito ainda este ano. O relatório desta quinta joga areia nessa tese. “Os formuladores de política monetária não vão gostar deste relatório”, disse Christopher Rupkey, economista-chefe da FWDBONDS, à Reuters.
Rupkey atribuiu parte da desaceleração a uma reação atrasada ao conflito no Oriente Médio, que afeta decisões de contratação em setores expostos a turismo e consumo discricionário. O emprego em lazer e hospitalidade recuou 61 mil postos, mesmo com a expectativa de reforço vindo da Copa do Mundo da FIFA.
Participação cai ao menor nível desde 2021
A taxa de desemprego recuou de 4,3% para 4,2%, mas por um motivo que preocupa os economistas. Cerca de 720 mil pessoas deixaram a força de trabalho, empurrando a taxa de participação para 61,5% — o piso desde março de 2021. O chamado break-even, o número de vagas necessárias para acomodar o crescimento populacional, caiu para entre zero e 50 mil por mês, reflexo do endurecimento imigratório.
Serviços profissionais e empresariais lideraram a criação líquida, com 36 mil postos de trabalho. Assistência social somou 25 mil e saúde acrescentou 22 mil, abaixo da média mensal de 38 mil nos últimos 12 meses. Demissões seguem em nível historicamente baixo, sinalizando que as empresas preferem segurar quadros mesmo diante de incertezas quanto a tarifas e geopolítica.
Real ganha força com Fed mais cauteloso
Para o investidor brasileiro, o desdobramento vai além da alta imediata das criptomoedas. Um Fed forçado a manter juros por mais tempo tende a enfraquecer o dólar globalmente, o que costuma aliviar a pressão sobre o real. O dólar comercial opera nesta quinta-feira a R$ 5,2010. Um DXY mais fraco também, historicamente, favorece ativos escassos como o Bitcoin — tese que ajuda a explicar o repique de hoje após o pior mês da história dos ETFs de Bitcoin, que sangraram US$ 4,51 bilhões em junho.
A cautela, no entanto, continua no radar. Analistas do Citi reduziram recentemente o preço-alvo do Bitcoin para US$ 82 mil e zeraram a contribuição esperada de novos fluxos de ETF no segundo semestre. Mesmo com o alívio nas taxas, o mercado cripto entra no terceiro trimestre com alavancagem reduzida e liquidez fraca, segundo dados da Talos. A próxima leitura relevante para o rumo dos juros será o CPI, agendado para meados do mês.