- Banco do Canadá mantém taxa em 2,25% pela segunda reunião consecutiva
- Macklem cita guerra no Irã e tarifas dos EUA como riscos opostos
- Próxima decisão ocorre em 10 de junho de 2026 com viés indefinido
O Banco do Canadá (BoC) decidiu manter a taxa básica de juros em 2,25% na reunião de 29 de abril, repetindo o patamar fixado em 18 de março. A autoridade monetária optou por aguardar enquanto dois choques externos o conflito no Irã e as tarifas comerciais dos Estados Unidos continuam embaralhando o cenário para a economia canadense.
O governador Tiff Macklem evitou sinalizar direção. Segundo ele, o BoC está pronto para cortar ou subir juros a depender de como esses dois vetores externos se desdobrarem nas próximas semanas. A postura, na prática, congela qualquer aposta de mercado sobre o próximo passo.
Dois choques empurram a política monetária em direções opostas
O dilema do BoC é incomum. De um lado, a escalada militar no Irã desde fevereiro de 2026 jogou o petróleo para cima, repassando custos de energia ao consumidor canadense. Rotas de navegação interrompidas e prêmios de risco no Brent reforçam o canal inflacionário, o tipo de pressão que normalmente pediria aperto monetário.
Do outro lado, as tarifas norte-americanas seguem corroendo as exportações canadenses e desacelerando o crescimento doméstico. O comunicado oficial classificou a política comercial de Washington como prejudicial à atividade do país, condicionando a perspectiva à estabilidade dessas taxas. É um cenário que, isoladamente, demandaria cortes para sustentar a economia.
Macklem reforçou ainda a volatilidade nos mercados globais, as cadeias de suprimentos travadas e a revisão para baixo das projeções de PIB canadense. A próxima decisão de juros está marcada para 10 de junho de 2026, justamente o dia em que esta análise circula.
Petróleo e Hormuz no centro da conta de inflação
O Canadá é exportador líquido de petróleo, o que normalmente amorteceria o impacto de um choque externo. Mas a inflação ao consumidor não distingue origem do barril, o ganho fiscal das províncias produtoras não compensa o repasse de preços nas bombas e na cesta básica. Por isso o BoC trata o conflito como risco altista para preços, mesmo com termos de troca favoráveis.
A tensão no Estreito de Ormuz, onde o Irã passou a cobrar pedágio em USDT de navios, mostra como o conflito já contamina rotas logísticas reais. Para o Brent, cada nova escalada empurra a curva de inflação canadense para cima e reduz o espaço de Macklem para cortar juros mesmo que o crescimento decepcione.
O que muda para cripto e para o real brasileiro
Para o investidor brasileiro, a decisão do BoC tem leitura indireta, mas relevante. O Canadá foi o primeiro país do G7 a aprovar um ETF spot de Bitcoin, em 2021, e a postura monetária do BoC costuma servir de termômetro antecipado para o Federal Reserve. Quando o banco canadense fica em compasso de espera, geralmente sinaliza que o Fed também encontra obstáculos para definir trajetória.
Isso conversa diretamente com o ambiente brasileiro. A pressão de Trump sobre o Fed por cortes, somada ao impasse canadense, mantém o dólar firme contra moedas emergentes. O USD/BRL opera em R$ 5,19 nesta terça-feira, e qualquer extensão do conflito no Oriente Médio tende a manter a moeda americana sustentada pressionando exchanges brasileiras que precificam stablecoins em real.
No mercado cripto, o Bitcoin é negociado a US$ 61.938, com leve alta de 0,6% em 24 horas. O ativo já reagiu negativamente a episódios anteriores do conflito, como quando um helicóptero americano foi abatido em Ormuz e a cotação caiu para US$ 60,7 mil. Agora, a manutenção dos juros canadenses adiciona mais uma camada de incerteza para risk assets.
Trajetória do Brent define próxima decisão
Macklem deixou claro que três variáveis dominam a função de reação do BoC até a próxima reunião: a trajetória do preço do petróleo, qualquer escalada ou desescalada militar no Irã, e os sinais de Washington sobre a continuidade das tarifas. O Brent já registrou alta de 2,5% após o último ataque iraniano contra Israel, evidenciando o quanto o cenário energético segue volátil. O projeto de CBDC canadense, ainda sem cronograma definido, permanece em estudo nesse pano de fundo.