- Carteiras ligadas ao Butão saíram de 13 mil para 3,1 mil BTC desde outubro de 2024
- CEO da DHI afirma não recordar última venda, mas não contesta carteiras identificadas pela Arkham
- Transferências envolveram endereços ligados a OKX e Galaxy Digital, sinalizando preparação para venda
O governo do butão rejeitou as informações de que teria liquidado parte expressiva de suas reservas de Bitcoin, em meio à movimentação atípica de carteiras rastreadas por analistas on-chain. A negativa veio depois que dados públicos apontaram queda superior a 76% nos saldos atribuídos ao país.
Segundo a plataforma de análise Arkham Intelligence, endereços vinculados ao fundo soberano Druk Holding and Investments (DHI) chegaram a guardar cerca de 13.000 BTC no auge, em outubro de 2024. Hoje, o mesmo grupo de carteiras soma pouco mais de 3.100 BTC.
A discrepância acende o debate sobre o que aconteceu com os quase 10 mil BTC ausentes. Ao câmbio atual, o valor envolvido supera R$ 4 bilhões, montante relevante mesmo para padrões soberanos.
A versão oficial do fundo soberano
Procurada por veículos internacionais, a DHI sustenta que não há vendas recentes.
“Não me lembro da última vez em que vendemos qualquer BTC”, afirmou o CEO Ujjwal Deep Dahal em resposta por e-mail.
O detalhe revelador está no que ele não disse. A estatal butanesa não contestou a atribuição das carteiras feita pela Arkham, nem forneceu números atualizados sobre o saldo real do país. O silêncio sobre a métrica central deixa a explicação incompleta.
Analistas que acompanham o caso identificaram que boa parte das transferências saiu em direção a endereços associados a exchanges centralizadas e mesas institucionais, incluindo OKX e Galaxy Digital. Esse padrão costuma anteceder vendas ou empréstimos colateralizados, embora não seja prova definitiva de liquidação.
Mineração hidrelétrica sob pressão
O butão construiu seu tesouro de forma incomum, não comprou Bitcoin no mercado, e sim minerou usando excedente de energia hidrelétrica. Operações estatais funcionam em múltiplas instalações alimentadas pelo potencial hídrico do Himalaia, com atualização contínua de equipamento ASIC.
O contexto, porém, é hostil. Relatório recente da CoinShares descreve o período pós-halving como um dos mais difíceis da indústria, com custo médio de mineração de empresas listadas subindo no fim de 2025 e o hashprice em níveis comprimidos. Vários competidores operam perto do break-even.
No BitNotícias, já mostramos como o aperto no hashprice derrubou a receita do setor em quase 10% após o último salto de dificuldade. Para um Estado-minerador, isso significa duas escolhas, queimar reservas para sustentar capex ou aceitar margem menor. A movimentação das carteiras butanesas se encaixa nessa segunda hipótese vender o estoque acumulado para financiar a operação corrente sem reportar perdas.
O compromisso com Gelephu em xeque
Há um agravante político. No fim de 2024, o governo anunciou destinar até 10.000 BTC ao projeto Gelephu Mindfulness City, zona econômica especial desenhada para atrair capital estrangeiro. Era um dos maiores compromissos soberanos em Bitcoin já anunciados publicamente.
Se a estimativa da Arkham estiver correta, o butão não tem mais BTC suficiente para honrar a promessa em moeda original. Restariam alternativas como pagamento em USD via venda gradual, financiamento colateralizado ou redimensionamento do projeto todas com implicações de credibilidade.
Para o investidor brasileiro, o episódio importa por dois motivos. Primeiro, reforça que reservas soberanas em Bitcoin não são intocáveis, governos vendem quando precisam, como já fez a Alemanha em 2024 com mais de 49 mil BTC apreendidos. Segundo, mostra como ferramentas on-chain hoje permitem auditar tesouros estatais com nível de detalhe inédito algo que tem peso direto no debate brasileiro sobre reservas corporativas em BTC e em propostas eventualmente discutidas na CVM e no Banco Central.
A DHI não divulgou cronograma para auditoria independente das carteiras nem confirmou o saldo real do tesouro butanês. Enquanto o fundo não apresentar prova on-chain do que ainda detém, a presunção de mercado tende a seguir os dados públicos da Arkham e esses dados mostram 9.900 BTC que saíram e não voltaram.