- Dirigentes do Fed admitem que próxima decisão pode ser alta de juros
- PCE americano subiu para 3,8% em abril, longe da meta de 2%
- Cessar-fogo entre EUA e Irã derruba petróleo e alivia pressão imediata
A possibilidade de uma alta de juros pelo Fed deixou de ser hipótese isolada e ganhou coro entre membros do comitê. Nesta sexta-feira, ao menos cinco dirigentes do banco central americano sinalizaram que o choque energético provocado pela guerra entre EUA e Irã pode forçar um aperto monetário ainda em 2026, em vez do corte que o mercado precificava antes do conflito.
A taxa básica segue na faixa de 3,50% a 3,75%. Apostas em derivativos agora indicam que o próximo movimento será de alta, possivelmente até o fim do ano. O giro de expectativa contamina o apetite por risco e o Bitcoin, negociado a US$ 74.054 (R$ 374.690), opera de lado há semanas justamente nesse ambiente de aperto financeiro mais longo.
Bowman muda de tom no comitê
O sinal mais expressivo veio de Michelle Bowman, vice-presidente de Supervisão e historicamente uma das vozes mais dovish do colegiado. Em conferência na Islândia, ela admitiu que ainda é cedo para medir a duração do choque iraniano, mas reconheceu uma virada possível na leitura de risco.
“Se as interrupções persistirem bem na segunda metade do ano, podemos começar a ver efeitos mais amplos sobre a inflação”, disse Bowman.
A dirigente afirmou que, nesse cenário, consideraria “mudar a abordagem sobre o balanço de riscos” eufemismo do Fed para sinalizar disposição a subir juros.
Neel Kashkari, presidente do Fed de Minneapolis e um dos três dissidentes hawkish da última reunião, foi mais direto. Segundo ele, é prematuro concluir pela alta imediata, mas o risco de que a inflação continue subindo e as expectativas se desancorem está no radar.
Inflação volta a acelerar acima da meta
Os dados explicam o desconforto. O índice de preços PCE, métrica preferida do Fed, subiu de 3,5% em março para 3,8% em abril no acumulado de 12 meses. Um indicador do Fed de Nova York que captura a dinâmica subjacente da inflação saltou de 3,5% para 4% no mesmo período. Preços de bens e serviços, excluindo habitação, aceleraram na comparação mensal.
Jeffrey Schmid, do Fed de Kansas City, foi o mais agressivo. Afirmou que a estratégia clássica de ignorar choques energéticos como temporários não se aplica ao contexto atual. Schmid foi além e mencionou o balanço patrimonial do Fed como ferramenta extra de aperto visão que choca com a posição do presidente Kevin Warsh, cético quanto ao uso da carteira de títulos para reforçar a política de juros.
Por que isso pesa no mercado cripto
Aqui entra a leitura que importa para o investidor brasileiro. O Bitcoin historicamente sofre quando juros reais americanos sobem ou quando a expectativa de corte é adiada foi exatamente o padrão observado entre 2022 e 2023, quando o ativo perdeu mais de 60% durante o ciclo de aperto. A queda recente do BTC para a faixa de US$ 73 mil a US$ 74 mil coincide com a reprecificação da curva de juros americana.
Para quem opera em BRL, há uma camada adicional. Dólar mais firme contra moedas emergentes tende a pressionar o real, e o USD/BRL em R$ 5,361 já reflete esse fluxo de proteção. Exchanges brasileiras vêm registrando aumento na demanda por stablecoins como hedge cambial, movimento que costuma se intensificar em ciclos de aperto monetário externo. Vale acompanhar como o Banco Central trata o setor nesse contexto.
Há, no entanto, um respiro de curto prazo. Os futuros de petróleo recuaram mais de 2% na sexta após relatos de que Washington e Teerã prorrogaram o cessar-fogo por mais 60 dias, o movimento que pode ser conferido no painel do CME Group. Foi a maior queda semanal do barril desde o início de abril. Mary Daly, do Fed de São Francisco, resumiu, “não há urgência para fazer um ajuste”. A política está em “bom lugar”, e o próximo passo depende de quando a guerra com o Irã efetivamente terminar o mesmo gatilho que o Bitcoin já incorporou ao próprio preço.