- Bitcoin acumula queda de 14% na semana e opera perto de US$ 61,4 mil
- ETFs de BTC à vista nos EUA somam US$ 4,57 bilhões em saques em quatro semanas
- SpaceX prepara IPO de US$ 75 bi com 30% reservados para investidores de varejo
O Bitcoin opera sob pressão renovada e analistas começam a apontar um novo vetor de risco que pouco apareceu no radar até agora: a oferta pública inicial da SpaceX, empresa aeroespacial de Elon Musk, que pode competir diretamente pela mesma poça de capital de risco que hoje sustenta o mercado cripto.
A maior criptomoeda do mundo é negociada a US$ 61.473 (R$ 319.087), com queda de 0,5% em 24 horas e recuo acumulado de cerca de 14% na semana, segundo dados de mercado. A capitalização total do setor cripto encolheu mais 1,1% no período, para US$ 2,2 trilhões.
ETFs perdem US$ 4,57 bilhões em quatro semanas
O sangramento institucional virou o pano de fundo do movimento. Dados da SoSoValue mostram que os ETFs de Bitcoin à vista listados nos EUA acumulam US$ 168,8 milhões em saques líquidos só nesta semana. Nas três semanas anteriores, os resgates somaram US$ 1,72 bilhão, US$ 1,42 bilhão e US$ 1,26 bilhão, respectivamente.
No total, são cerca de US$ 4,57 bilhões em saídas líquidas nos últimos 30 dias. O patrimônio sob gestão dos produtos despencou de US$ 104,29 bilhões em meados de maio para US$ 77,58 bilhões em 9 de junho — uma evaporação de quase US$ 27 bilhões em pouco mais de três semanas.
O contraste com o cenário derivativos reforça o quadro defensivo. O open interest em contratos de Bitcoin caiu 0,57%, para aproximadamente US$ 45 bilhões, sinal de que traders alavancados estão reduzindo exposição em vez de comprar a queda. O Índice de Medo e Ganância marca leitura 9, segunda semana consecutiva em zona de medo extremo.
SpaceX mira valuation de US$ 1,75 trilhão
A oferta da SpaceX, segundo a Reuters, deve atingir um valuation próximo de US$ 1,75 trilhão, com cerca de 30% da oferta reservada para investidores de varejo — fatia incomum em um IPO desse porte. É exatamente esse desenho que liga o alerta no mercado cripto.
“Cripto é a moeda de financiamento de boa parte disso. Precisamos achar US$ 75 bilhões para esse IPO, e esse dinheiro tem que sair de algum lugar”, disse Spencer Hallarn, chefe global de mesa OTC da GSR, à Reuters. A leitura é direta: parte do varejo que hoje opera Bitcoin pode liquidar posição para entrar no papel mais badalado de Musk desde a Tesla.
Thomas Puech, CEO da INDIGO, vai na mesma direção. Para ele, o IPO drena capital de risco no curto prazo porque cripto e ações de crescimento concorrem pelo mesmo bolso. Atualmente, segundo Puech, papéis ligados a inteligência artificial — e a SpaceX se enquadra parcialmente no apetite por tecnologia de fronteira — têm sido a aposta preferida do investidor growth.
Capitulação ainda não veio, diz CryptoQuant
A CryptoQuant publicou em 10 de junho que as perdas realizadas em BTC nos últimos 30 dias somaram cerca de 187 mil BTC, volume bem abaixo dos 400 mil BTC do pânico de fevereiro e dos 1,2 milhão registrados após o colapso da FTX. “Historicamente, fundos relevantes se formam após a exaustão dos vendedores. Os dados sugerem que ainda não chegamos lá”, escreveu a empresa.
Para o investidor brasileiro, o efeito combinado tende a ser amplificado pelo câmbio. Com o dólar a R$ 5,19, qualquer rotação de capital americano em direção ao papel da SpaceX pressiona Bitcoin em dólar e impacta diretamente a cotação em reais nas exchanges locais. Há ainda um agravante regulatório: a CVM já indicou foco em tokenização, mas não há, no Brasil, oferta de varejo direta de ações estrangeiras como a que se desenha para a SpaceX nos EUA — o que pode concentrar a saída de capital em quem opera via brokers internacionais e BDRs, segmento que cresceu nos últimos dois anos.
O movimento institucional reforça o cuidado. A BlackRock transferiu 3.580 BTC para a Coinbase Prime recentemente, em meio aos resgates do IBIT, e a Glassnode classificou o Bitcoin como em zona de risco diante da pressão vendedora persistente. Tecnicamente, o BTC opera próximo ao suporte de US$ 62.500 da banda Murrey Math; o rompimento de US$ 59.375 abriria caminho para perdas adicionais, enquanto o MACD segue em território negativo com gap crescente entre as linhas.