- Strategy vendeu 32 BTC a US$ 77.135 entre 26 e 31 de maio
- CEO Phong Le diz que objetivo foi testar processos internos da empresa
- Companhia segue compradora líquida com 1.500 BTC adquiridos no mesmo período
O CEO da Strategy Inc., Phong Le, rebateu nesta terça-feira (10) as críticas que se acumularam após a primeira venda de Bitcoin da companhia desde 2022. Em entrevista ao programa Power Lunch, da CNBC, o executivo classificou a operação como um exercício deliberado e limitado de gestão de balanço, não como abandono da tese fundadora de Michael Saylor.
“Queríamos inocular o mercado e testar nossos processos”, afirmou Le, na que foi descrita como sua primeira entrevista na função. “Aprendemos que tudo funciona.” A frase tenta encerrar o debate aberto há duas semanas entre acionistas institucionais e o que o próprio CEO chamou de “anarquistas cripto” ideologicamente comprometidos com o hodl permanente.
Entre 26 e 31 de maio, a empresa vendeu 32 BTC por cerca de US$ 2,5 milhões, a um preço médio de US$ 77.135 por moeda. O volume representa apenas 0,004% do total detido pela companhia — irrisório no balanço, mas grande o suficiente para reacender o debate sobre a doutrina do “nunca vender” repetida por Saylor durante anos.
Três motivos para soltar os primeiros bitcoins
Le listou três justificativas para a operação. A primeira foi estabelecer publicamente que a Strategy é capaz de vender quando necessário. A segunda, confirmar que os sistemas internos de execução funcionam. A terceira, capturar perdas tributárias sobre lotes adquiridos em preços mais altos — a empresa tem base de custo que varia entre US$ 10 mil e US$ 125 mil por BTC.
O CEO foi categórico ao negar pressão financeira. “Não precisávamos vender Bitcoin para pagar nossos dividendos”, disse. “Conseguimos fazer isso por outras atividades de captação.” Os recursos foram direcionados às distribuições da ação preferencial perpétua STRC. No saldo do período, lembrou Le, a Strategy comprou aproximadamente 1.500 BTC enquanto vendia os 32 — manteve-se compradora líquida.
A operação ecoa um movimento de dezembro de 2022, quando a companhia vendeu 704 BTC a US$ 16.776 e recomprou 810 dois dias depois. Foi um exercício clássico de tax-loss harvesting, viável porque os Estados Unidos ainda não aplicam a regra de wash sale a criptoativos. O precedente reforça a leitura de que a venda de maio segue a mesma cartilha contábil.
Bitcoin a US$ 61 mil pressiona MSTR
O mercado, contudo, não absorveu a explicação com a mesma calma dos acionistas institucionais. O Bitcoin opera nesta quarta-feira (10) ao redor de US$ 61.455 (R$ 318.994), queda de 0,6% em 24 horas e mais de 40% abaixo da máxima histórica de US$ 126.198 atingida em outubro de 2025. O anúncio da Strategy coincidiu com saques recordes nos ETFs spot, estimados entre US$ 2,8 bilhões e US$ 3,5 bilhões, que dispararam US$ 1,8 bilhão em liquidações forçadas em uma única sessão.
As ações MSTR seguem o mesmo movimento. Os papéis circulam entre US$ 117 e US$ 127, recuo aproximado de 67% ante a máxima de 52 semanas, em US$ 457. Para tentar recompor a narrativa, a Strategy retomou as compras: entre 1 e 7 de junho, adquiriu 1.550 BTC a preço médio de US$ 65.332. Ao fim de maio, a tesouraria somava 845.256 BTC, com base de custo total de cerca de US$ 63,97 bilhões. A defesa veio de outras frentes do setor, como mostrou a leitura do CEO da BTCTOP, que estima resiliência até patamares de US$ 30 mil.
Le cita três ventos contrários e mantém tese de hedge
Ao lado de David Zervos, estrategista-chefe da Jefferies, Le elencou os fatores macro que pressionam o ativo: incerteza sobre a trajetória de juros do Federal Reserve, duas guerras em curso e ausência de clareza regulatória no Congresso americano. O cenário tem efeito direto sobre investidores brasileiros expostos a BTC e MSTR via BDRs e fundos locais, que viram o ativo perder mais de R$ 200 mil em valor de mercado por unidade desde outubro. Ainda assim, o executivo manteve a tese de longo prazo. “Bitcoin é um hedge contra inflação e contra o grande governo”, afirmou, comparando o atual drawdown ao recuo de cerca de 75% registrado em maio de 2022. Para a base institucional, segundo ele, a mensagem foi compreendida — o ruído ficou no varejo.