- Strike lança empréstimo em BTC sem margin call nem liquidação por preço
- LTV inicial cai para 45% e prazo encurta de 12 para 6 meses
- Taxa sobe cerca de 2,95% e produto exclui Califórnia, Nova York e Texas
A Strike, empresa de Jack Mallers, colocou de pé em 7 de julho de 2026 um produto que promete resolver a maior queixa dos tomadores de empréstimo em cripto, o medo da liquidação forçada quando o mercado despenca. O novo formato, batizado de volatility-proof loans, remove o gatilho de preço do contrato o cliente pode ver o Bitcoin cair pela metade e, ainda assim, manter o colateral intacto, desde que pague os juros em dia.
O anúncio chega em um momento sensível. O BTC opera perto de US$ 62.010 (cerca de R$ 319.835), com queda de 3% em 24 horas, e acumula meses de bear market desde o topo do ano anterior. Para o investidor alavancado, cada nova perna de baixa vira ameaça real de perda de colateral.
Mallers descreveu esse cenário na publicação no X ao apresentar o produto, “Sem margin calls. Sem liquidações por preço. Não importa o quanto o Bitcoin caia, o seu Bitcoin não se move”. A frase resume a proposta comercial, mas esconde uma reengenharia relevante do risco.
O que muda em relação ao empréstimo padrão
O produto tradicional da Strike, lançado em maio de 2025, segue o padrão do setor. O tomador deposita BTC, recebe dólares sem vender e convive com uma escada de alertas, aviso em 65% de LTV, margin call em 70% e liquidação parcial em 85%. Basta uma queda brusca para o algoritmo entrar em ação.
Na nova modalidade, esse gatilho desaparece. Em troca, o cliente aceita quatro concessões concretas. O LTV inicial cai de 50% para 45% quem deposita US$ 100 mil em BTC saca no máximo US$ 45 mil. O prazo encolhe de 12 para 6 meses. A taxa de juros embute um prêmio de aproximadamente 2,95%, elevando o APR para uma faixa entre 10,44% e 14,2%. E o colateral fica travado até o vencimento, sem a opção de resgatar Bitcoin no meio do caminho.
O empréstimo aceita três finalidades, originar contrato novo, refinanciar dívida existente ou consolidar múltiplos empréstimos. Não há migração entre modalidades depois de assinado.
Risco de preço vira risco de caixa
A engenharia por trás do produto não elimina risco apenas troca o tipo. A própria Strike admitiu no X que “todo empréstimo em Bitcoin antes deste tinha um convidado invisível na mesa, o próprio preço do BTC”. Ao retirar esse convidado, entra outro, o fluxo de caixa do tomador.
Se o cliente atrasa uma parcela ou não quita no vencimento, existe janela de tolerância de 10 dias. Passado esse prazo, a Strike pode vender parte do colateral para cobrir o valor devido. Mallers reforçou a distinção: o produto é à prova de volatilidade, não de inadimplência. O Bitcoin depositado não é imune apenas indiferente ao preço, dentro do contrato.
A estrutura se apoia em uma linha de crédito de US$ 2,1 bilhões e em uma parceria com a Tether para rastreamento onchain do colateral segregado. Nem todos os norte-americanos podem contratar: segundo o FAQ atual da Strike, o produto está fora de Califórnia, Nova York e Texas, três dos maiores mercados dos EUA.
Brecha competitiva reabre debate no Brasil
No mercado brasileiro, produtos de crédito lastreados em cripto ainda operam em zona cinzenta, sem regulação específica da CVM ou do Banco Central para o desenho de LTV, gatilhos de liquidação e custódia de colateral. Exchanges locais oferecem empréstimos em stablecoin com regras próximas do padrão internacional margem apertada, liquidação automática por preço. Nenhuma replicou até agora um modelo que abandone o gatilho de mercado.
A entrada da Tether como parceira operacional da Strike também tem leitura para o investidor brasileiro. A stablecoin já ancora boa parte do fluxo de saída de reais para cripto, e o aporte recente no Mercado Bitcoin mostra que a empresa vem financiando infraestrutura no país. Um produto similar chegar por aqui deixou de ser hipótese remota.
Em paralelo, a Strategy segue estratégia oposta, vendeu 3.588 BTC para gerar caixa, e o mercado avalia se o NUPL já sinaliza fundo do ciclo pano de fundo que explica por que Mallers escolheu justamente agora para blindar o colateral do cliente contra o próprio gráfico.