- Strive quer canalizar US$ 200 bilhões ao Bitcoin via instrumentos de crédito
- Empresa detém 19.105 BTC, avaliados em cerca de US$ 1,2 bilhão
- Ação preferencial SATA paga rendimento de 13% com dividendo diário
A Strive Inc., listada na Nasdaq sob o ticker ASST, traçou uma meta ambiciosa: atrair US$ 200 bilhões em capital novo para o ecossistema do Bitcoin usando o encanamento do mercado de crédito tradicional. O plano foi detalhado por Jeff Walton, diretor de risco da companhia, que descreveu o objetivo como uma forma direta de empurrar o preço do BTC para cima.
A tese parte de uma constatação simples. O mercado global de renda fixa movimenta dezenas de trilhões de dólares por ano, e grande parte desse dinheiro nunca toca diretamente em criptoativos. Se for possível embalar exposição ao Bitcoin dentro de papéis de crédito com rendimento competitivo, investidores institucionais conservadores entram pela porta dos fundos.
A aposta de 19 mil BTC em tesouraria
A Strive acumula hoje cerca de 19.105 BTC, valor equivalente a aproximadamente US$ 1,2 bilhão à cotação atual de US$ 64.315. A posição coloca a empresa entre as maiores tesourarias corporativas do ativo no mundo. Em meados de junho de 2026, a companhia comprou 2.500 BTC por cerca de US$ 185 milhões. Poucos dias depois, adicionou outros 73 BTC a US$ 4,7 milhões.
O ritmo de compras lembra o playbook que Michael Saylor popularizou na Strategy (antiga MicroStrategy). A diferença está no que vem por trás. Enquanto Saylor opera principalmente com notas conversíveis e ofertas de ações, a Strive construiu um braço de finanças estruturadas chamado True North, dedicado a emitir instrumentos de crédito lastreados em Bitcoin.
O produto carro-chefe é a Variable Rate Series A Perpetual Preferred Stock, negociada sob o ticker SATA. A ação preferencial paga rendimento próximo de 13% ao ano, com dividendos creditados diariamente, segundo dados divulgados pela própria empresa em comunicado oficial. O desenho mira um público específico: investidores que jamais comprariam BTC diretamente, mas aceitam yield de dois dígitos sobre um papel preferencial.
Walton ataca narrativa do ouro digital
O número de US$ 200 bilhões é a versão modesta da tese. Walton tem mencionado em entrevistas o que chama de oportunidade de US$ 300 trilhões no mercado de crédito global. O argumento é que o Bitcoin foi enquadrado de forma estreita como ouro digital, ignorando sua utilidade como colateral em produtos financeiros estruturados.
A leitura faz sentido quando se observa o movimento institucional dos últimos trimestres. As baleias seguem acumulando em ritmo agressivo, enquanto fundos de pensão e seguradoras esbarram em mandatos que proíbem exposição direta a criptoativos. Um papel preferencial pagando 13% com lastro indireto em BTC contorna esse obstáculo regulatório.
A Strive concluiu em 2025 fusões com Asset Entities e a própria True North, consolidando a estrutura necessária para emitir esses produtos em escala. O movimento aconteceu enquanto outras tesourarias adotavam estratégias mais conservadoras — recentemente, a SpaceX revelou 18.712 BTC no balanço do IPO, número próximo ao da Strive mas sem a camada de engenharia financeira.
Investidor brasileiro via BDR e câmbio
Para o aplicador local, o vetor de exposição à ASST passa por BDRs ou corretoras com acesso direto à Nasdaq. Com o dólar a R$ 5,08 e a Selic em 14,25% após o terceiro corte do Copom, o yield de 13% em dólar da SATA fica abaixo da renda fixa brasileira em moeda local, mas sem o risco cambial — um trade-off relevante para carteiras dolarizadas.
Saylor vira referência, mas estrutura muda
A diferença entre o modelo Strive e o da Strategy não é cosmética. Notas conversíveis dependem da continuidade da alta nas ações da emissora. Já a SATA é um papel perpétuo de renda variável, com dividendo prefixado em estrutura, sem promessa de conversão em equity. Se o BTC cair, o detentor continua recebendo o cupom — desde que a Strive mantenha capacidade de pagamento. O risco se desloca da apreciação do criptoativo para a solvência da emissora.
Walton tem repetido que o objetivo final é tornar o BTC âncora de produtos de renda fixa que compitam com Treasuries e debêntures corporativas. A meta de US$ 200 bilhões representa menos de 0,1% do mercado global de crédito.