- Prejuízo da TeraWulf no 1T26 saltou para US$ 427 milhões, ante US$ 61 milhões um ano antes
- Receita com computação de IA chegou a US$ 21 milhões, equivalente a 60% do faturamento
- Mineração de Bitcoin caiu 50% no trimestre e somou apenas US$ 13 milhões
A TeraWulf (WULF) entrou em uma fase em que a mineração de Bitcoin deixou de ser o motor principal do negócio. No primeiro trimestre de 2026, a empresa registrou prejuízo líquido de US$ 427 milhões, contra US$ 61,4 milhões no mesmo período de 2025, segundo o balanço divulgado nesta semana. As ações fecharam em queda de 2,6% após a publicação.
O número assusta, mas a leitura por trás dele revela uma reorganização estrutural. Dos US$ 34 milhões em receita reportados, US$ 21 milhões vieram da nova frente de computação de alta performance voltada à inteligência artificial. É um avanço de 117% ante o trimestre anterior. A mineração de Bitcoin, antes carro-chefe, encolheu pela metade e ficou em torno de US$ 13 milhões.
Contrato bilionário com FluidStack redesenha balanço
O ponto de virada foi o acordo anunciado em outubro com a FluidStack, com aval do Google. O contrato original, de dez anos, foi estendido para 25 anos e elevado a cerca de US$ 9,5 bilhões em receita contratada. Na prática, a TeraWulf trocou exposição ao preço do BTC por fluxos previsíveis de aluguel de capacidade computacional.
O CEO Paul Prager resumiu o trimestre como de “execução”. Segundo ele, a companhia entrou em 2026 com plataforma pronta e sites, contratos e capital e agora converte essa base em desempenho operacional. O CFO Patrick Fleury reforçou que o modelo passa a ser dominado por receita recorrente e contratada, reduzindo a dependência da volatilidade típica do Bitcoin.
A empresa encerrou março com aproximadamente US$ 3,1 bilhões em caixa e equivalentes. A empresa reaproveitará parte da infraestrutura de mineração para sustentar cargas de IA, mais rentáveis por watt instalado.
Ações disparam mesmo com prejuízo
Apesar da reação negativa do dia, o papel acumula alta superior a 30% no último mês e mais de 105% no ano. WULF era negociada perto de US$ 23,51 no fechamento. O mercado parece descontar o prejuízo contábil em boa parte ligado a despesas não recorrentes da transição e precificar o pipeline de contratos plurianuais de IA.
A TeraWulf não atua sozinha nesse movimento. Concorrentes do setor seguiram caminho parecido, como mostra o caso recente da mineradora Core Scientific em transição para IA, que também trocou hash rate por GPUs de alto desempenho. A venda de US$ 208 milhões em BTC para financiar data centers reforçou o padrão, mineradoras estão usando o próprio estoque de Bitcoin como capital de giro para construir capacidade de HPC.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para quem acompanha mineradoras listadas pelo Brasil seja via BDRs ou corretoras com acesso ao mercado americano, o caso da TeraWulf adiciona uma camada nova de análise. O ativo deixa de ser uma proxy direta do preço do Bitcoin. A correlação histórica entre WULF e BTC, que justificava a tese de “comprar mineradora para alavancar exposição cripto”, tende a se enfraquecer conforme contratos de IA dominam a receita.
Há também uma leitura macro relevante. A demanda por capacidade computacional para treinar modelos de linguagem está empurrando os custos de energia para cima nos hubs onde as mineradoras operam, especialmente em Nova York e Texas. Quem não conseguir ancorar contratos longos de HPC pode ficar espremido entre o halving que reduziu recompensas em abril de 2024 e a competição por energia barata.
O movimento da TeraWulf sinaliza qual será o teste de sobrevivência para o setor nos próximos trimestres: capacidade de migrar parte da infraestrutura sem comprometer o caixa. Os US$ 3,1 bilhões disponíveis dão fôlego, mas a execução até 2027 mostrará se a aposta trará resultados. Detalhes do balanço completo estão no relatório original divulgado pela companhia.

