- Wintermute diz que Bitcoin subiu 1,9% com CPI em linha e trégua no Irã
- Tesourarias cripto encolheram de US$ 220 bi para US$ 140 bi em ativos
- Decisão do Fed em 19 de junho será teste para continuidade do repique
A formadora de mercado Wintermute classificou o repique recente do Bitcoin como frágil e alertou que, sem retorno consistente do fluxo em ETFs, o movimento corre o risco de se tornar mais uma armadilha de mercado em baixa. A análise consta no relatório semanal divulgado pela empresa, que opera bilhões em volume diário de cripto.
No período analisado, o BTC avançou 1,9%, acompanhado por alta de 3,1% em altcoins, ganho de 2,3% no Nasdaq e salto de 4% no Russell 2000. O Ether destoou, recuando 0,4%. Nesta segunda-feira (16), porém, o Bitcoin já devolve parte do fôlego e é negociado a US$ 65.705 (R$ 332.487), em queda de 0,7% em 24 horas, segundo dados de mercado.
CPI e trégua com Irã impulsionaram ativos
Dois gatilhos macro destravaram o apetite por risco. O CPI dos EUA de maio veio em 4,2% na comparação anual — terceira aceleração consecutiva e maior leitura desde 2023 — mas dentro do esperado. O núcleo recuou para 2,9%, sugerindo que a pressão recente vem mais da energia do que de salários e serviços.
O segundo motor foi geopolítico. Após mais de 100 dias, o conflito entre Israel e Irã chegou ao fim, com Donald Trump autorizando a reabertura do Estreito de Ormuz e o fim do bloqueio naval. A assinatura formal está marcada para 19 de junho, na Suíça. O Brent caiu da faixa dos US$ 110 para os US$ 80 no mês, recuando 6,6% só na semana. O dólar cedeu 1% no índice DXY, enquanto o Treasury de 10 anos voltou à casa dos 4,50%. O alívio chega depois que o BTC já havia reagido de US$ 59 mil a US$ 67 mil com o anúncio do acordo.
Tesourarias perdem US$ 80 bilhões em ativos
O ponto crítico levantado pela Wintermute está na liquidez. A casa lembra que o ecossistema cripto depende de três canais de capital: stablecoins, ETFs à vista e empresas de tesouraria em ativos digitais. Nenhum deles virou claramente para cima.
Os ativos sob gestão das tesourarias corporativas encolheram de US$ 220 bilhões para cerca de US$ 140 bilhões, retração de mais de um terço. Fora Strategy, Bitmine e Strive, a captação de novos recursos praticamente parou. Os ETFs de Bitcoin registraram a maior sequência de saques desde o lançamento — em uma única semana, os resgates somaram US$ 4,4 bilhões, novo recorde histórico. O fluxo em stablecoins também segue sob pressão.
A queda recente, segundo a Wintermute, foi atribuída por parte dos traders à venda de 32 BTC pela Strategy, mas a leitura dela é outra: o que pesou foi a combinação de aperto macro com a perda de tração após o rali que levou o BTC dos US$ 60 mil para US$ 83 mil. Desde outubro do ano passado, o ativo já acumula três drawdowns superiores a 20%. Os mercados de perpétuos e opções mostram pouco apetite por apostas direcionais agressivas, o que sugere consolidação de verão.
Fed decide rumo em 19 de junho
O próximo teste é a reunião do Federal Reserve. Não há expectativa de mudança de juros — o foco será no dot plot revisado e na primeira coletiva de Kevin Warsh como presidente do BC americano. Leitura branda do núcleo de inflação e do petróleo pode prolongar o repique; ênfase no headline de 4,2% pode encerrá-lo. Ex-diretora do Fed projeta postura hawkish de Warsh na estreia.
Para o investidor brasileiro, o cenário soma duas camadas. A primeira é cambial: o dólar mais fraco lá fora pressiona o real e reduz o ganho em BRL de quem está posicionado em BTC via exchanges locais. A segunda é regulatória — a CVM segue tratando ETFs de cripto com cautela, e o fluxo doméstico via produtos como HASH11 tende a espelhar o humor dos ETFs americanos. Sem retomada do apetite institucional nos EUA, o mercado brasileiro dificilmente verá entrada relevante de capital novo no curto prazo. Os dados completos estão no canal oficial da Wintermute.