- Carteira inativa desde 2015 voltou a movimentar 5 BTC nesta quarta
- Tese é que Claude organizou arquivos antigos e cruzou dados de senha
- Especialistas negam quebra de criptografia e falam em triagem forense
Um usuário do X afirmou que o assistente Claude, da Anthropic, foi peça central na recuperação de uma carteira de Bitcoin com 5 BTC, avaliados em cerca de US$ 400 mil. O relato viralizou nesta quarta-feira e acumulou mais de 6 milhões de visualizações, reabrindo a discussão sobre o papel real de modelos de linguagem em tarefas de recuperação de cripto.
A conta pseudônima Cprkrn publicou capturas de tela do diálogo com o chatbot e marcou o CEO da Anthropic, Dario Amodei. Segundo o usuário, a carteira estava inacessível havia quase nove anos. “Claude acabou de destravar isso”, escreveu, em tom eufórico.
Dados on-chain corroboram parte do relato. O endereço iniciado em 14VJyS não registrava movimentação desde 2015 até a transação desta quarta. O próprio Cprkrn havia citado a carteira em um post de agosto de 2023, descrevendo o problema como antigo. A justificativa para o esquecimento da senha, contou ele, foi prosaica: ficou chapado e mudou a chave em 2014, sem anotar.
O que a IA fez de fato
A leitura dos prints, porém, não sustenta a narrativa de que o modelo quebrou a criptografia do Bitcoin. Antes de recorrer ao Claude, o usuário relata ter tentado ferramentas tradicionais como btcrecover e Hashcat, softwares amplamente usados para testar combinações de senha contra arquivos cifrados. Nenhuma funcionou.
O ponto de virada teria sido o upload de arquivos de um computador antigo da época da faculdade. O modelo identificou um arquivo de carteira esquecido, que respondeu corretamente a uma frase mnemônica anotada num caderno antigo.
“Acabou sendo a solução mais óbvia possível”, admitiu o dono.
Especialistas em recuperação ouvidos pela imprensa internacional minimizaram o feito. “O papel provável do Claude foi vasculhar grandes volumes de dados históricos e identificar pistas ligadas a credenciais antigas”, disse um deles. “Isso é menos sobre quebra de senha e mais sobre triagem forense”. Em outras palavras, o usuário já tinha o arquivo certo e a seed certa faltava apenas conectar os pontos.
Contexto do hype em IA aplicada a cripto
O episódio acontece num momento em que a Anthropic vem empurrando o Claude para tarefas mais sensíveis. O Claude Mythos, lançado recentemente, é apresentado pela empresa como capaz de identificar vulnerabilidades em software e executar tarefas autônomas de segurança. A combinação “IA que faz auditoria” + “cripto perdida” criou o gatilho perfeito para a viralização independentemente do que tecnicamente ocorreu.
No Reddit, parte do público desmontou o exagero.
“Claude não fez nada além de pesquisar nos arquivos dele. O título é vago o suficiente para fazer os mais ingênuos acharem que aconteceu algo revolucionário”, escreveu um usuário em fórum de tecnologia.
Para o investidor brasileiro, o caso serve menos como prova de mágica algorítmica e mais como alerta de higiene digital. Estimativas recorrentes da Chainalysis apontam que cerca de 20% de todo o Bitcoin em circulação está em endereços considerados perdidos ou dormentes. Boa parte por motivo idêntico ao do post viral: senhas esquecidas, HDs antigos, mnemônicos rabiscados em papel.
Vale lembrar que enviar arquivos de carteira para qualquer LLM hospedado em nuvem expõe metadados sensíveis. Mesmo que a frase mnemônica não vá direto no prompt, fragmentos de arquivo, nomes de software de carteira e estruturas de diretório podem indicar o saldo aproximado para um eventual atacante com acesso aos logs. A cautela é o mesmo princípio que motivou a iniciativa de clear signing da Ethereum Foundation: reduzir a exposição cega do usuário.
A própria Binance usa IA para barrar fraudes, e a Google detectou um zero-day criado com ajuda de IA. O vetor cresce dos dois lados. O perfil oficial da Anthropic no X ainda não comentou o caso publicamente.