- CPI dos EUA sobe a 3,8% em abril, maior nível desde 2022
- Mercado precifica 59,5% de chance de Fed manter juros parados em 2026
- Petróleo acima de US$ 100 com conflito EUA-Irã pressiona inflação
O índice de preços ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos avançou para 3,8% em abril na comparação anual. É a leitura mais alta desde 2022 e veio puxada principalmente pela disparada dos custos de energia.
O número derrubou de vez a aposta em afrouxamento monetário no curto prazo. Plataformas de mercados de previsão agora atribuem apenas 2,3% de probabilidade a um corte de juros na reunião de junho de 2026 do Federal Reserve. Para a reunião de setembro, a chance caiu de 17% para 15,3% em 24 horas.
O cenário consolidado entre traders é ainda mais duro, há 59,5% de probabilidade precificada de que o Fed não promova nenhum corte ao longo de todo o ano de 2026. A leitura reflete a percepção de que a pressão inflacionária deixou de ser transitória.
Petróleo acima de US$ 100 trava o Fed
O combustível por trás da nova onda inflacionária tem nome, petróleo. O conflito entre Estados Unidos e Irã interrompeu rotas de distribuição de energia e empurrou o barril de cru para além de US$ 100. A escalada militar foi sinalizada nas últimas semanas, quando Trump avaliou opções militares contra Teerã.
O presidente do Fed, Jerome Powell, sinalizou que o comitê manterá a taxa básica inalterada até obter mais clareza sobre a trajetória dos preços de energia. A postura é coerente com o mandato duplo da autoridade monetária, cortar juros agora correria o risco de cimentar expectativas inflacionárias de longo prazo.
O choque energético se soma a um pano de fundo geopolítico carregado. A viagem de Trump à China em 14 de maio coloca tarifas, terras-raras e o próprio Irã na pauta de uma cúpula que pode redesenhar fluxos de commodities globais.
Impacto no Bitcoin e no investidor brasileiro
Para o mercado cripto, a leitura é desconfortável. O Bitcoin historicamente reage mal a ambientes de juros altos prolongados, que reduzem o apetite por ativos de risco e elevam o custo de oportunidade do dinheiro. Não por acaso, o BTC tem oscilado em torno de US$ 80 mil nas últimas semanas, longe das máximas anteriores.
Parte dos analistas ainda enxerga descolamento. Arthur Hayes projeta Bitcoin a US$ 126 mil sob a tese de que a corrida por infraestrutura de IA forçará injeções de liquidez tanto nos EUA quanto na China, neutralizando o efeito do Fed restritivo. Outros, no entanto, alertam para correção mais profunda caso o cenário inflacionário se estenda.
No Brasil, o repique do dólar costuma acompanhar episódios de aperto monetário americano. Um Fed parado por mais tempo tende a sustentar o DXY elevado e pressionar o real, o que mecanicamente eleva o preço do Bitcoin em BRL mesmo quando o ativo cai em dólar. Esse descompasso já se materializou em ciclos anteriores e tem sido um amortecedor relevante para investidores brasileiros expostos a BTC via exchanges locais e ETFs listados na B3.
O que acompanhar nas próximas semanas
Três variáveis concentram a atenção do mercado. A primeira é o desenrolar da tensão EUA-Irã e qualquer movimento que afete a oferta global de petróleo. A segunda envolve as próximas leituras do CPI e do PCE, indicador preferido do Fed para calibrar política monetária.
A terceira é o tom dos discursos de Powell e demais membros do FOMC. Qualquer abrandamento retórico pode reverter rapidamente a precificação atual e devolver fôlego para ativos de risco. Enquanto isso não vem, os dados publicados pelo Bureau of Labor Statistics seguem mandando no humor dos mercados globais.