- Witt afirma que CEOs bancários recusaram reuniões da Casa Branca em fevereiro
- Comitê do Senado leva CLARITY Act a votação nesta quarta, dia 14 de maio
- Análise oficial estima impacto de apenas 0,02% no crédito bancário americano
A briga em torno dos rendimentos pagos por stablecoins nos Estados Unidos chegou ao seu momento mais áspero. A três dias da votação do CLARITY Act no Comitê Bancário do Senado, marcada para 14 de maio, a Casa Branca passou a expor publicamente o lobby do setor financeiro.
Em publicação no X feita em 11 de maio, Patrick Witt, diretor executivo do Comitê Consultivo Presidencial sobre Ativos Digitais, afirmou ter convidado Rob Nichols, presidente da American Bankers Association (ABA), e outros CEOs de associações bancárias para reuniões em fevereiro. O objetivo era discutir justamente o tratamento de recompensas e rendimentos em stablecoins. Segundo Witt, todos recusaram.
“Imagino que a Casa Branca estivesse abaixo do nível deles”, ironizou o oficial em publicação no X. A fala muda o enquadramento da disputa: o que os bancos apresentam agora como objeção técnica de última hora seria, na verdade, uma discussão que eles próprios escolheram não travar meses atrás.
O que está em jogo no CLARITY Act
O projeto cria a estrutura regulatória de mercado para ativos digitais nos EUA. O ponto mais sensível é se emissoras de stablecoins, corretoras cripto ou empresas afiliadas podem oferecer programas de recompensa que funcionem, na prática, como juros sobre depósitos.
A ABA acionou bancários no fim de semana para pressionar senadores por restrições mais duras. O argumento é direto: se clientes migrarem dólares para stablecoins remuneradas, os bancos perdem base de financiamento barata para conceder crédito a famílias, pequenas empresas e produtores rurais. O texto atual tenta separar rendimento passivo de recompensas por atividade — distinção que o setor bancário considera uma brecha.
Do outro lado, grupos como o Stand With Crypto, financiado pela Coinbase, e a Digital Chamber tratam o tema como concorrência. As reservas das stablecoins ficam em caixa e títulos curtos do Tesouro, que geram receita. A pergunta política é quem captura esse retorno: o emissor, a corretora ou o usuário final.
Números derrubam o discurso dos bancos
A própria Casa Branca publicou dados que minam a tese do lobby bancário. O Conselho de Assessores Econômicos calculou em abril que proibir rendimento em stablecoins aumentaria o crédito bancário em apenas US$ 2,1 bilhões — cerca de 0,02% do total emprestado pelo sistema.
Análise paralela da Galaxy Research aprofundou o argumento. A consultoria projeta que 60% a 70% do crescimento das stablecoins sob o arcabouço do GENIUS Act virá de usuários offshore buscando exposição ao dólar. A entrada de capital estrangeiro superaria a migração de depósitos domésticos numa proporção de 2 para 1. Cada dólar em stablecoin geraria 32 centavos de crédito líquido nos EUA, com expansão total entre US$ 400 bilhões e US$ 1,2 trilhão até 2030.
Impacto para o investidor brasileiro
O desenlace em Washington tem peso direto sobre o cotidiano de quem opera cripto no Brasil. Mercado Bitcoin, Foxbit, Bitso e a brasileira Tether dependem da liquidez global do USDT, hoje a stablecoin mais usada por brasileiros para entrar e sair de posições. Caso o Senado permita programas de recompensa, exchanges internacionais poderão atrair ainda mais reais via on-ramp em dólar tokenizado, pressionando margens de custódia local.
O contraste regulatório também fica mais evidente. Enquanto o Congresso americano debate como remunerar usuários, o Banco Central brasileiro caminha em sentido oposto na consulta sobre prestadores de serviços de ativos virtuais, com restrições mais duras para movimentação de stablecoins em autocustódia. Investidores que acompanham o crescimento do mercado de stablecoins precisam mapear esse descompasso regulatório entre Brasília e Washington.
O senador Bernie Moreno, republicano de Ohio, usou o termo “cartel bancário” ao atacar a ABA, lembrando o histórico de fechamento de contas durante a chamada Operação Choke Point 2.0. A retórica eleva o tom, mas pode endurecer resistências entre democratas que ainda condicionam apoio ao CLARITY Act a salvaguardas antilavagem. A leitura do cronograma da votação e do compromisso final no Comitê dará a medida real do poder do lobby bancário americano nesta rodada.
