- OCC concede aprovação final para o First National Digital Currency Bank
- Nova estrutura poderá custodiar reservas do USDC sob supervisão federal
- Ação da Circle na NYSE avançou mais de 10% após o anúncio
A Circle Internet Group (NYSE: CRCL) recebeu no dia 10 de julho a aprovação final do Office of the Comptroller of the Currency (OCC) para operar um banco fiduciário de âmbito nacional nos Estados Unidos. A decisão fecha um caminho regulatório iniciado em 2025 e coloca a infraestrutura do USDC, a segunda maior stablecoin do mundo, sob supervisão bancária federal direta. A palavra circle passa, a partir de agora, a carregar peso de instituição financeira licenciada.
A nova entidade foi registrada como First National Digital Currency Bank, N.A. e operará sob a marca Circle National Trust. O escopo inicial contempla custódia fiduciária de ativos digitais para a própria Circle e afiliadas. O plano de negócios aprovado prevê expansão para clientes institucionais selecionados — bancos e organizações reguladas de derivativos — conforme surgir demanda.
Custódia e reservas do USDC mudam de endereço
Hoje, o lastro do USDC — composto por caixa e Treasuries de curto prazo — é mantido por parceiros bancários terceirizados. Com a nova licença, a Circle poderá trazer gradualmente esses ativos para dentro da sua própria estrutura regulada. A companhia descreveu o gerenciamento de reservas como capacidade “planejada”, e não disponível já no lançamento.
O USDC circulava com oferta próxima de US$ 73 bilhões em 9 de julho, segundo o CoinGecko, atrás apenas do USDT da Tether entre as stablecoins. O token operava a US$ 0,9999, dentro da paridade com o dólar. Em reais, o volume equivale a algo em torno de R$ 374 bilhões pelo câmbio atual de R$ 5,12 por dólar.
“A aprovação do OCC marca um passo definidor para trazer blockchain e ativos digitais ao núcleo do sistema financeiro dos EUA”, declarou Jeremy Allaire, cofundador e CEO da Circle, em publicação no X. Ele destacou que a supervisão federal cria um novo padrão de transparência e governança para a operação da empresa.
Corrida de cripto-firmas por licença bancária
A Circle não está sozinha nessa fila. O OCC já concedeu aprovações condicionais para Ripple, Coinbase, Paxos, BitGo, Fidelity e Crypto.com. A japonesa Sony também obteve aval do OCC para stablecoin em dólar, mostrando que o portão do regulador americano está aberto para nomes muito além do universo cripto nativo.
O movimento se apoia no GENIUS Act, lei federal de stablecoins de pagamento aprovada em 2025. O OCC publicou proposta de regulamentação em fevereiro de 2026, e o texto entra em vigor pleno em 18 de janeiro de 2027. Allaire posicionou a Circle como uma das primeiras a se encaixar nessa nova estrutura antes da vigência total.
Vale um alerta: The Defiant já mostrou que algumas empresas têm se autodenominado “reguladas” sob uma lei que ainda não está totalmente operante. A licença da Circle, por outro lado, é uma carta bancária concreta emitida pelo próprio OCC — categoria diferente de marketing regulatório.
CRCL sobe 10% na NYSE após anúncio
As ações da Circle avançaram mais de 10% nas primeiras horas de pregão em Nova York após o comunicado. O IPO da empresa, um dos mais aguardados do setor cripto em 2025, ganhou nova narrativa: agora o argumento não é só emitir stablecoin, mas ocupar espaço regulado que bancos tradicionais demoraram a preencher.
Para o investidor brasileiro, o desdobramento tem duas leituras. A primeira é competitiva: enquanto a B3 apenas lançou opções sobre futuros de BTC, ETH e SOL, os EUA estão criando bancos-cripto de fato. A segunda envolve a arquitetura de liquidez: o USDC é largamente usado por traders brasileiros em rampas de saída via exchanges como Binance e Coinbase. A entrada do BNY, maior custodiante do mundo, na custódia institucional de USDC — combinada com o novo status de banco da Circle — tende a reduzir risco de contraparte percebido pelo mercado local.
A Circle acumulou nos últimos dez anos uma coleção de licenças: BitLicense em Nova York (2015), enquadramento sob MiCA na União Europeia (2024), autorização do FSRA em Abu Dhabi (2025), além de registros no Reino Unido, Singapura e Bermudas. A carta do OCC completa esse mosaico com a peça central do sistema financeiro americano.