EUA confiscam US$ 1 bi em cripto do Irã: vai para reserva de Trump?

  • Bessent afirma que EUA apreenderam cerca de US$ 1 bilhão em cripto ligada ao Irã
  • Apenas US$ 344 milhões em USDT congelados pela Tether estão documentados publicamente
  • Destino dos ativos depende de classificação entre Reserva de Bitcoin e Digital Asset Stockpile

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, declarou no Reagan National Economic Forum que o governo americano apreendeu cerca de US$ 1 bilhão em ativos cripto vinculados ao Irã. A fala transforma o episódio em um primeiro teste prático do arcabouço da reserva estratégica criada por Donald Trump e abre uma disputa de classificação entre bitcoin, stablecoins e demais tokens.

Segundo Bessent, as autoridades “simplesmente pegaram as carteiras”. A CBS reportou que ele descreveu os recursos como dinheiro roubado do povo iraniano. O secretário, no entanto, não detalhou quais ativos foram alcançados nem identificou os endereços. Essa lacuna é justamente o que define se algum dos valores chegará à Strategic Bitcoin Reserve.

O que “apreender” realmente significa

Em abril, o Tesouro sancionou várias carteiras ligadas ao Irã. A Tether confirmou ter congelado US$ 344 milhões em USDT em dois endereços após coordenação com autoridades dos EUA. A TRM Labs identificou esses mesmos endereços como vinculados ao Banco Central do Irã, à Força Quds do IRGC e ao Hezbollah. Os US$ 656 milhões restantes seguem sem detalhamento público por carteira ou por token.

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Existe uma distância considerável entre “apreender” e ter a propriedade legal do ativo. Sob as regras da OFAC, bens bloqueados estão congelados, mas o governo americano não é necessariamente o dono. No caso de stablecoins, o emissor pode travar tokens em endereços específicos — uma trava de sanções, não um confisco no sentido penal. A apreensão policial coloca o ativo sob custódia, porém a titularidade só se consolida após o final forfeiture, etapa que pode esbarrar em restituição a vítimas, uso em operações ou repartição com estados.

Dois baldes criados pela ordem de Trump

A ordem executiva assinada por Trump em 2025 separou os ativos digitais do governo em duas estruturas. A Strategic Bitcoin Reserve guarda apenas BTC com confisco final concluído, e o texto proíbe a venda desse estoque. Já o US Digital Asset Stockpile recebe os tokens que não são bitcoin, sob administração do Tesouro.

Aplicado ao caso iraniano, o desenho transforma a apreensão em uma questão de triagem. Bitcoin com forfeiture completo vai para a reserva permanente. USDT, ETH ou TRX seguem para o stockpile. Ativos ainda congelados, sem decisão judicial definitiva, ficam fora dos dois compartimentos. Para a reserva estratégica de bitcoin, portanto, o impacto pode ser zero — ou relevante, a depender da composição.

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Ao preço atual de US$ 73.848, US$ 1 bilhão totalmente denominado em BTC equivaleria a cerca de 13.632 bitcoins. Sobre um estoque estimado em 200 mil BTC já sob controle do governo americano, isso representaria um acréscimo de aproximadamente 6,8%. A hipótese é teto: o único componente itemizado publicamente, os 33% em USDT, não se encaixa nessa rota.

Escala iraniana e leitura para o investidor brasileiro

A escala da operação é compatível com a movimentação cripto iraniana. A Chainalysis estimou em US$ 7,78 bilhões a atividade do ecossistema cripto do Irã em 2025, com fluxos ligados ao IRGC respondendo por cerca de metade no quarto trimestre. A TRM Labs elevou o cálculo total para perto de US$ 10 bilhões. A comunicação pública da Tether sobre congelamentos colaborativos com autoridades reforça que a infraestrutura de stablecoins virou peça central da política externa americana.

Para o investidor brasileiro, a operação reforça dois vetores. O primeiro: emissores centralizados como Tether atuam como extensão da política de sanções dos EUA, o que torna USDT um ativo regulatoriamente sensível mesmo em corretoras locais — tema que dialoga com as novas regras do Banco Central para prestadoras de serviços de ativos virtuais. O segundo: cada apreensão de cripto adversária amplia o estoque soberano americano e, se for em BTC, retira oferta permanente do mercado, em movimento paralelo ao das tesourarias corporativas como a Strategy, que mira US$ 80 bilhões em compras.

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Jornalista, assessor de comunicação e escritor. Escreve também sobre cinema, séries, quadrinhos, já publicou dois livros independentes e tem buscado aprender mais sobre criptomoedas, o suficiente para poder compartilhar o conhecimento.