- Tether afirma ter bloqueado US$ 550 milhões em USDT ligados ao Irã em 2026
- Relatório do Senado aponta USDT em 84% de 846 carteiras sancionadas
- Empresa diz acumular US$ 4,9 bilhões em ativos congelados com autoridades
A maior emissora de stablecoins do mundo entrou em modo de defesa pública. A Tether divulgou nesta segunda-feira que ajudou autoridades a congelar cerca de US$ 550 milhões em USDT associados ao Irã ao longo de 2026, horas depois de investigadores democratas do Senado norte-americano publicarem um relatório apontando a stablecoin como canal preferencial de evasão de sanções por Teerã.
O número se divide em duas operações. Em abril, mais de US$ 344 milhões vinculados ao Banco Central do Irã foram bloqueados. Outros US$ 130 milhões foram travados em quatro carteiras distintas no restante do ano.
“A Tether demonstrou de forma consistente que o USDT não é abrigo para agentes sancionados, organizações terroristas ou redes criminosas”, afirmou o CEO Paolo Ardoino em comunicado oficial da empresa.
Senado aponta USDT em 84% das carteiras sancionadas
O relatório veio do Subcomitê Permanente de Investigações do Senado. Os investigadores analisaram 846 carteiras de criptomoedas sancionadas por ligação com o Irã e concluíram que 84% delas transacionaram exclusiva ou quase exclusivamente em USDT.
O senador Richard Blumenthal usou o levantamento para pedir que o Departamento do Tesouro e o Departamento de Justiça abram investigação sobre possíveis violações de sanções. Não há, até o momento, processo formal aberto contra a empresa.
A resposta da Tether foi apresentar números acumulados. Segundo a companhia, a cooperação com autoridades ao redor do mundo já resultou em mais de US$ 4,9 bilhões em ativos congelados, dos quais mais de US$ 2,4 bilhões ligados diretamente a órgãos norte-americanos.
Ardoino listou os parceiros: DOJ, FBI, Serviço Secreto, HSI e OFAC. “Vamos continuar disponibilizando essa capacidade para autoridades que combatem terrorismo, evasão de sanções, fraude e outros crimes graves”, disse o executivo.
Congelamento centralizado reacende debate antigo
Há uma tensão embutida nesse tipo de anúncio que o mercado brasileiro conhece bem. Cada operação de bloqueio é, ao mesmo tempo, prova de conformidade regulatória e demonstração de que a Tether pode congelar saldos de qualquer carteira, a qualquer momento, sem ordem judicial prévia no país do detentor.
Para o usuário comum, o risco é remoto. Para tesourarias corporativas e mesas de trading que mantêm posições relevantes em USDT como caixa operacional, é um fator de risco que precisa estar no mapa. O ponto é técnico, não ideológico: a stablecoin é um passivo de uma empresa privada, não dinheiro ao portador.
Esse debate ganhou tração recente dentro do próprio ecossistema. Um dos cofundadores da Tether defendeu publicamente que a próxima geração de stablecoins mantenha reservas verificáveis on-chain, justamente para reduzir a dependência de auditorias e declarações voluntárias.
Brasil é o mercado que mais usa USDT na América Latina
O tema não é distante para quem opera daqui. O USDT responde pela maior fatia do volume de criptoativos negociado no Brasil, superando o próprio Bitcoin em transações declaradas à Receita Federal nos últimos ciclos. É a ponte padrão entre real e mercado cripto global.
Com BTC cotado a US$ 83.956 — cerca de R$ 437.536 — e o dólar em R$ 5,21, boa parte da entrada e saída de capital no varejo brasileiro passa por stablecoins antes de virar posição em qualquer ativo.
O Banco Central já sinalizou preocupação com esse fluxo. As regras de câmbio publicadas em novembro de 2025 enquadram transferências de stablecoins para carteiras próprias como operação cambial, com exigências de identificação de contraparte. A lógica regulatória brasileira converge com a norte-americana: rastrear quem está do outro lado.
Nos Estados Unidos, o cerco vem por outro flanco. O Fed abriu consulta pública sobre exigência de lastro integral para emissores, movimento que pressiona a estrutura de reservas da Tether em papéis de curto prazo.
Nenhuma autoridade americana confirmou abertura de investigação formal contra a empresa até o fechamento desta matéria.



