- PPI dos EUA acelera para 6% ao ano, maior nível desde 2022
- Bitcoin cai abaixo de US$ 80 mil e marca mínima em US$ 79.557
- Yield do Treasury de 30 anos sobe a 5,03% e pressiona ativos de risco
O Bitcoin rompeu o piso psicológico de US$ 80 mil nesta quarta-feira após o índice de preços ao produtor dos Estados Unidos vir muito acima do esperado em abril. A maior criptomoeda caiu da faixa dos US$ 81 mil para US$ 79.706, com mínima do pregão em US$ 79.557.
O choque veio do Producer Price Index divulgado pelo BLS. O PPI cheio avançou 1,4% no mês, quase três vezes o consenso de 0,5%. A taxa anual saltou para 6,0%, vinda de 4,3% e bem acima dos 4,9% projetados. É o mesmo patamar registrado em 2022, quando o Federal Reserve operava o ciclo mais agressivo de aperto monetário em quatro décadas.
O núcleo do índice, que exclui alimentos e energia, subiu 1,0% no mês contra previsão de 0,3%. Na comparação anual, o core PPI passou de 4,0% para 5,2%. A medida mais restrita, sem comércio, também acelerou: 0,6% no mês e 4,4% em doze meses.
Resposta cross-asset ao choque
A reprecificação foi imediata em todos os mercados. O ETF SPY, que replica o S&P 500, recuou de acima de US$ 740 para US$ 737, com pavio inferior chegando a US$ 735,48. O yield do Treasury de 30 anos escalou para cerca de 5,034%, enquanto o papel de 10 anos foi a 4,471%.
O índice DXY ficou em 98,49 e o petróleo WTI negociava perto de US$ 102,15. A combinação é desconfortável: dólar firme, juros longos subindo e energia em alta ao mesmo tempo. Cada um desses vetores drena liquidez de ativos de risco e estreita a janela para um corte de juros pelo Fed em dezembro.
O dado de produtor chegou logo após o CPI de abril também vir acima do esperado, com a inflação ao consumidor saltando de 3,3% para 4,8% em doze meses. A leitura combinada altera o mapa inflacionário porque o PPI alimenta diretamente o cálculo do PCE — métrica preferida do Fed.
Leitura para o investidor brasileiro
Para quem opera cripto no Brasil, o cenário tem dupla camada. A primeira é o efeito direto: BTC negociado em corretoras locais como Mercado Bitcoin, Foxbit e Binance Brasil acompanhou a queda em tempo real, com pares BRL refletindo a perda de US$ 80 mil já com o dólar comercial acima de R$ 5,40.
A segunda camada é mais sutil. Um dólar mais forte tipicamente pressiona o real, o que pode amortecer a queda do BTC quando medido em moeda nacional. Foi o padrão visto em 2022 e 2023, quando perdas em dólar foram parcialmente compensadas pela desvalorização cambial brasileira.
A diferença agora é a entrada institucional. O mercado vinha de um ciclo positivo, com fundos cripto captando US$ 858 milhões na sexta semana seguida de entradas, segundo a CoinShares. Um PPI a 6% testa diretamente essa tese: se o Fed mantém juros altos por mais tempo, ETFs spot tendem a perder atratividade frente a Treasuries pagando mais de 5%.
O que observar nas próximas sessões
O nível de US$ 80 mil deixou de ser referência redonda e virou linha tática. Uma recuperação rápida desse patamar limitaria o estrago a uma sacudida pontual ligada ao evento macro. Negociação continuada abaixo expõe a mínima de US$ 79.557 e transforma cada repique fracassado em teste de controle vendedor.
Houve tentativa de estabilização após a queda inicial. O BTC saiu da mínima rumo a US$ 79.700, o SPY ricocheteou da região dos US$ 735 e os yields recuaram um pouco. A reação, porém, foi tímida — petróleo em alta e dólar firme mantiveram a pressão macro ativa.
Analistas técnicos já observavam o nível com atenção antes do dado. Em leitura recente, o Bitcoin a US$ 80 mil repete padrão de 2017 e 2021, segundo Merlijn The Trader, que vê risco de fakeout antes de movimento maior. O gatilho para virar essa página é claro: BTC precisa retomar US$ 80 mil, SPY estabilizar e os juros longos pararem de subir.