Tor Project lança campanha cripto para financiar liberdade na internet

  • Tor Project abre captação em BTC, ETH, Monero, Zcash e Golem em 19 de maio
  • Pool inicial de US$ 115 mil multiplica doações via modelo de financiamento quadrático
  • Liberdade na internet cai há 15 anos seguidos e atinge metade da população mundial

O Tor Project e a organização Funding the Commons abriram uma campanha de financiamento em criptomoedas para sustentar ferramentas de privacidade e resistência à censura online. A iniciativa, descrita como a primeira no formato Web3 voltada à liberdade na internet, começa em 19 de maio e canaliza recursos para dez projetos sem fins lucrativos.

As doações são aceitas em Bitcoin (BTC), Ethereum (ETH), Zcash (ZEC), Monero (XMR) e Golem (GLM). O foco está em iniciativas que atuam em comunicação segura, contorno de bloqueios e infraestrutura digital de interesse público — áreas que, segundo os organizadores, ficaram fora do radar do venture capital tradicional.

Modelo quadrático premia quem doa pouco

Uma reserva inicial de US$ 115 mil, bancada por Cake Wallet, Zcash Community Grants, Logos e Octant, será usada para multiplicar contribuições recebidas até 18 de junho. O mecanismo escolhido é o financiamento quadrático, fórmula popularizada por Vitalik Buterin e pela Gitcoin.

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Na prática, a lógica inverte o peso dos cheques grandes. Dez pessoas doando US$ 10 cada geram um match maior do que um único doador colocando US$ 100. A ideia é distribuir poder de decisão entre comunidades amplas, em vez de concentrá-lo em filantropos endinheirados.

“O financiamento quadrático é uma das respostas da Web3 para como infraestrutura crítica deveria ser bancada: o dinheiro institucional segue o sinal da comunidade, não o contrário”, afirmou David Casey, diretor da Funding the Commons. A coalizão diz que o modelo “dá voz significativa a mais pessoas” sobre o destino dos recursos.

O Tor Project é uma organização sem fins lucrativos que mantém o navegador Tor e roteia tráfego de internet por nós distribuídos, criptografando a origem das requisições. A ferramenta é usada por jornalistas, ativistas e moradores de países com censura pesada — público que historicamente depende de doações para manter o serviço gratuito.

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Censura online em alta e pressão sobre VPNs

A campanha chega num momento de deterioração mensurável. O relatório Freedom on the Net 2025, da Freedom House, aponta queda na liberdade digital em quase 40% dos 72 países avaliados, com 15 anos consecutivos de retrocesso global. Apagões e bloqueios afetaram mais da metade da população mundial em 2025.

A Ásia concentra os casos mais severos. Governos de dez países, incluindo China, Índia, Coreia do Norte, Tailândia e Mianmar, impuseram mais de 50 novas restrições, atingindo cerca de 2 bilhões de pessoas. No Ocidente, o cenário também piorou: os EUA deixaram a Freedom Online Coalition em janeiro, abandonando um pacto multilateral pela abertura da rede.

O uso de VPNs cresceu como reação, mas mais de uma dúzia de países hoje bloqueia ou criminaliza esses serviços. No Irã, um apagão nacional em janeiro durante protestos por colapso econômico levou usuários a migrar para o Bitchat, projeto peer-to-peer via Bluetooth associado a Jack Dorsey.

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O que isso significa para o investidor brasileiro

Para o ecossistema cripto, a campanha consolida um discurso que vai além do preço. Bitcoin e Monero passam a ser apresentados como trilhos de financiamento de bens públicos digitais — narrativa que pode pesar em debates regulatórios, inclusive no Brasil.

O Banco Central conduz a consulta pública do Marco Legal das Stablecoins e prepara regras para prestadores de serviços de ativos virtuais. A discussão sobre privacidade em transações com criptoativos, especialmente envolvendo moedas como Monero e Zcash, costuma esbarrar em exigências de KYC e rastreabilidade. Iniciativas como a do Tor reforçam o lado oposto da balança: o de que privacidade financeira tem função social legítima.

O movimento também dialoga com outras frentes da Web3 voltadas a infraestrutura pública, como pesquisas em verificação formal em Ethereum e debates sobre resiliência criptográfica diante de ameaças futuras. Em paralelo, a captação testa se a tese de financiamento descentralizado consegue sustentar projetos críticos sem depender de fundações corporativas ou governos.

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Jornalista, assessor de comunicação e escritor. Escreve também sobre cinema, séries, quadrinhos, já publicou dois livros independentes e tem buscado aprender mais sobre criptomoedas, o suficiente para poder compartilhar o conhecimento.