- David Hoffman, da Bankless, vendeu todo seu ETH após revisar tese de longo prazo
- Cofundador diz que rede segue forte, mas ETH não captura valor gerado por L2s
- Stablecoins na rede saltaram de US$ 3 bi em 2020 para US$ 163 bi atualmente
David Hoffman, cofundador do Bankless, anunciou que vendeu toda sua posição em ethereum. A decisão pesa porque parte de um dos rostos públicos mais associados ao ativo na última década. Para ele, a tese de que o ETH se consolidaria como o dinheiro nativo da rede já se esgotou — não fracassou, apenas chegou ao limite do que conseguia entregar.
O movimento é simbólico. Hoffman construiu carreira, mídia e identidade pessoal em torno do ecossistema Ethereum. Ainda assim, ele afirma seguir “massivamente otimista” com a rede como infraestrutura. O problema, segundo ele, está no token. O ETH, na leitura do investidor, dificilmente passará por uma reprecificação estrutural relevante a partir daqui — nem para cima, nem para baixo.
No momento desta publicação, o ETH era negociado a US$ 2.077, o equivalente a cerca de R$ 10.427 pela cotação do dólar a R$ 5,02. O ativo opera longe das máximas históricas e acumula desempenho fraco frente ao bitcoin no ciclo atual, o que reforça o desconforto de parte da base de holders.
A tese do ETH como dinheiro se esgotou
Hoffman descreve o Ethereum como um jogo de coordenação em camadas. Para o ETH virar referência monetária, tudo precisava se alinhar ao mesmo tempo: liderança descentralizada, governança ágil, execução técnica, incentivos coerentes para L2s e domínio de mercado. Era um caminho estreito. E, na visão dele, a janela se fechou.
A comparação com o bitcoin é direta. O BTC enxugou a camada base para reforçar a função monetária. O Ethereum seguiu o caminho oposto — programabilidade máxima, blockspace barato, abertura para aplicações. Essa escolha criou superfície de adoção, mas amarrou o prêmio monetário do ETH a vitórias simultâneas em tecnologia, cultura e estrutura de mercado.
Hoffman resume: a rede chegou “parte do caminho”, mas não à versão máxima da tese que muitos bulls esperavam quando o ativo flertava com US$ 4.800 em 2021.
Rollups e o problema da captura de valor
O argumento técnico central toca um ponto sensível para o investidor brasileiro que avalia exposição a L1s. Tokens de smart contract costumam refletir taxas, receita e atividade. Foi assim com a Solana em 2024, com NEAR em 2026 e com geradores constantes de fee como BNB e TRX.
O Ethereum optou por outro modelo. Os rollups escalam a execução, as aplicações abocanham a margem do usuário final, e a camada base fornece liquidação segura a custo baixo. Hoffman foi explícito: as L2s podem operar com margens de 97%, enquanto o token base captura uma fração do valor que circula no ecossistema. “O Ethereum é um doador, não um tomador”, escreveu.
Para o leitor que acompanha o noticiário, a tensão não é nova. Já abordamos como a demanda à vista enfraquece mesmo com alavancagem em alta, e como tesourarias corporativas concentram ETH sem resolver o problema de captura.
Stablecoins fortalecem outro tipo de dinheiro
Há um dado que sintetiza a contradição. Em 2020, a rede hospedava US$ 3 bilhões em stablecoins. Hoje são US$ 163 bilhões, uma multiplicação de 54 vezes. O sucesso do Ethereum como camada de liquidação ampliou o uso de dólares tokenizados — não a função monetária do ETH.
Hoffman também questiona se a versão “forte” do cripto (DeFi, NFTs, DAOs como sistema financeiro paralelo) chegou a se firmar como equilíbrio cultural duradouro. Para ele, o ETH funcionou melhor como dinheiro da internet justamente no auge da pandemia, quando todo mundo foi empurrado para o ambiente online e o cripto virou febre cultural.
No Brasil, o efeito prático aparece nas exchanges locais. O par ETH/BRL perdeu protagonismo para BTC e para stablecoins atreladas ao dólar, que dominam o volume de varejo. A leitura de Hoffman explica em parte por que a narrativa de “ETH como reserva” perdeu tração mesmo entre investidores que seguem comprando exposição via gatilhos pontuais de alta. A publicação completa de Hoffman está disponível em seu perfil oficial no X.