- MARA tem 1,1 GW energizado e projeta passar de 2 GW com Long Ridge
- CEO Fred Thiel prioriza modelo de aluguel de sites em vez de GPU-as-a-service
- Parceria com Starwood foi fechada em fevereiro após dois anos de estruturação
A Marathon Digital Holdings (NASDAQ: MARA), uma das maiores mineradoras de Bitcoin do mundo, está convertendo seu maior trunfo energia barata e terra para data centers em um negócio voltado à inteligência artificial. O presidente-executivo Fred Thiel detalhou a estratégia na 54ª conferência anual da TD Cowen, classificando o movimento como um processo de mais de dois anos.
A virada acontece num momento delicado para o setor. Com o BTC cotado a US$ 73.754 (R$ 373,2 mil) e ETFs registrando saídas bilionárias, mineradoras pressionadas por margens apertadas precisam justificar bases de ativos pesadas. Transformar megawatts em receita recorrente de IA virou tese dominante entre Riot, CleanSpark, Core Scientific e agora MARA.
De mineradora asset-light a dona da infraestrutura
Thiel lembrou que a MARA nasceu com modelo enxuto, focada em comprar máquinas ASIC e alocá-las em sites de terceiros. A inflexão veio em 2023, quando a crise no setor permitiu à companhia adquirir 70% da capacidade onde já operava por valor inferior ao custo de reposição.
Naquele ciclo, a MARA passou a deter terreno, subestações e contratos de energia. Depois vieram um parque eólico próprio, operações de mineração com gás de queima em campos de petróleo e um acordo de 250 megawatts nos Emirados Árabes Unidos, com dois data centers em Abu Dhabi resfriados por imersão líquida sem ar-condicionado.
“Todos os tipos de tecnologia que você precisa para IA no futuro”, afirmou o executivo.
Aluguel de energia substitui GPU-as-a-service
Em fevereiro, a MARA fechou parceria com a Starwood para desenvolver e arrendar capacidade a hiperescaladores. A escolha pelo modelo imobiliário tem motivo de balanço, construir um site de 100 MW para neoclouds exige cerca de US$ 100 milhões em infraestrutura e US$ 300 milhões em GPUs. No formato joint venture com a Starwood, a mineradora contribui com o terreno energizado e recebe crédito de equity antes de desembolsar capital novo.
“Você não pode ser tudo para todo mundo”, disse Thiel.
O portfólio atual soma mais de 1,1 gigawatt energizado. Sites acima de 100 MW estão sendo oferecidos a hyperscalers, áreas menores miram neoclouds e provedores de inferência de IA. Com expansões e a aquisição pendente da Long Ridge, a capacidade pode ultrapassar 2 gigawatts.
O que isso significa para o investidor brasileiro
A leitura aqui vai além da MARA. O movimento reforça uma tese de Wall Street, mineradoras evoluem de proxies do Bitcoin para ativos híbridos. Esse rerating explica parte do prêmio do setor mesmo com o BTC abaixo de US$ 75 mil. Para quem acompanha o setor por aqui, vale lembrar que o Goldman Sachs elevou o alvo do S&P 500 apostando exatamente na cadeia de valor de IA e energia é o gargalo da vez.
No Brasil, a leitura é dupla. Mineradoras locais como 2Bitcoin e operações no Paraná já estudam contratos híbridos com hosting de HPC, replicando em escala menor o modelo MARA-Starwood. Fundos brasileiros focados em IA podem ampliar atenção às mineradoras da Nasdaq acessíveis por BDRs e contas internacionais.
Prioridades de curto prazo
Thiel listou três frentes para fechar o ano, assinar contratos de locação no portfólio existente, concluir a transação da Long Ridge e arrendar essa capacidade. Sob a estrutura com a Starwood, a MARA só contribui com um site após ele estar locado, e eventuais estouros de orçamento não recaem sobre o balanço da mineradora.
A operação de Bitcoin segue ativa. Segundo Thiel, a MARA minera até a chegada do inquilino de IA e então transfere a infraestrutura. A companhia também avalia, no longo prazo, vender ativos estabilizados e reciclar capital, ou mantê-los para gerar fluxo de caixa. A leitura conversa com o cenário das baleias do Bitcoin desacelerando compras e com a recente saída recorde de ETFs spot de BTC, que pressiona mineradoras a diversificar receita.