- Alavancagem on-chain em DeFi atinge 38%, maior nível desde o ciclo de 2021
- Investidores retiraram US$ 13 bilhões dos protocolos após exploits em abril
- Empréstimos não recuam no mesmo ritmo da queda do TVL, aponta Binance Research
A alavancagem dentro do ecossistema DeFi voltou a um patamar que não era visto desde o ciclo especulativo de 2021. Segundo relatório da Binance Research, a razão de alavancagem on-chain alcançou cerca de 38%, sinalizando um descompasso entre o tamanho do mercado e o volume de dívida ativa nos protocolos.
O dado chama atenção menos pelo apetite por risco e mais pelo que aconteceu do outro lado da equação. O denominador encolheu. O TVL (Total Value Locked) soma dos ativos depositados em contratos inteligentes derreteu nos últimos meses por uma combinação de queda de preços e saques pesados.
Saques de US$ 13 bilhões pressionam protocolos
Abril foi o estopim. Uma sequência de exploits e ataques a contratos inteligentes levou investidores a retirar cerca de US$ 13 bilhões dos protocolos, segundo o levantamento. O movimento reduziu rapidamente o capital travado e amplificou o peso relativo das posições alavancadas que permaneceram em aberto.
Em ciclos passados, esse tipo de pressão costumava ser seguido por um processo natural de deleveraging, tomadores devolvem empréstimos, fecham posições e diminuem a exposição ao risco. Não foi o que ocorreu desta vez. A Binance Research afirma textualmente que o desalavancamento “ainda não se materializou”.
A leitura é direta. Enquanto o TVL caía com a fuga de capital, o volume bruto de empréstimos pendentes permaneceu praticamente intacto. O resultado é um sistema mais concentrado, com menos colchão de liquidez por unidade de dívida exatamente o tipo de configuração que precede liquidações em cadeia quando o preço se mexe na direção errada.
Sobrecolateralização segura mutuários por enquanto
Por que tantos tomadores conseguiram resistir mesmo com o mercado em queda? A resposta passa pelo desenho dos próprios protocolos. Empréstimos em DeFi costumam ser sobrecolateralizados, o que significa que o usuário deposita valor superior ao montante tomado. Essa folga evita liquidação automática mesmo em correções moderadas.
Outro grupo de participantes manteve posições abertas por estratégia. Operações de arbitragem, yield farming e looping entre stablecoins continuaram rendendo, e o custo de fechar essas estruturas pesa mais do que carregá-las por mais um trimestre. A aposta implícita é de recuperação dos preços no curto prazo.
Para o investidor brasileiro que opera via Aave, Compound ou pools de stablecoins, o recado é prático, a margem de segurança coletiva diminuiu. Uma queda adicional do Bitcoin, cotado a US$ 65.49, ou do Ethereum, em US$ 1.793, pode disparar liquidações em série porque a base de colateral é majoritariamente composta por ETH e derivados. Vale acompanhar o movimento de depósitos em stablecoins na V4, que sinaliza para onde está indo a liquidez sobrevivente.
Risco de cascata de liquidação cresce
O cenário descrito pela Binance Research tem implicações diretas sobre volatilidade. Quando a alavancagem se concentra em uma base menor de capital, qualquer venda forçada gera impacto desproporcional no preço dos ativos colaterais. Isso, por sua vez, dispara novas liquidações o efeito conhecido como cascata.
O paralelo histórico mais óbvio é maio de 2021, quando uma correção de cerca de 30% no ETH em poucos dias provocou onda de liquidações que durou semanas. À época, a razão de alavancagem rondava níveis similares aos atuais. A diferença é que, em 2021, o TVL caía junto com o crescimento de novas posições, agora, o problema é estrutural, ninguém está pagando dívida.
O movimento contrasta com o que ocorre no Bitcoin, que passou por oito meses de redução gradual de alavancagem em derivativos. Enquanto o BTC desinflou suas posições especulativas no ritmo das quedas, o ecossistema DeFi acumulou risco. Dados on-chain mostram que baleias retiraram US$ 700 milhões em BTC das exchanges no mesmo período, movimento de redução de exposição que não tem equivalente no universo de empréstimos descentralizados.
A próxima semana de negociação será observada de perto por traders que monitoram health factors em Aave e MakerDAO. Qualquer rompimento de suporte técnico no ETH abaixo de US$ 1.700 colocaria parcela relevante do colateral em zona de risco imediato de execução.