- Third Point comprou 869.563 ações da Hut 8 por cerca de US$ 40,8 milhões
- Fundo zerou posições em petróleo e siderurgia para financiar tese de IA
- Hut 8 reconverte infraestrutura de mineração de Bitcoin em data centers para IA
O bilionário Dan Loeb redesenhou o portfólio da Third Point LLC e escolheu uma ex-mineradora de Bitcoin para liderar a nova aposta. O 13F referente ao primeiro trimestre de 2026 mostra a compra de 869.563 ações da Hut 8 Corp, posição avaliada em cerca de US$ 40,8 milhões. O movimento veio acompanhado da saída de papéis ligados a petróleo e siderurgia.
A troca não é trivial. O fundo administra aproximadamente US$ 24,1 bilhões em ativos, e a rotação sugere uma leitura clara sobre onde está o próximo ciclo de capex. Loeb tem repetido publicamente que “mal arranhamos a superfície” do potencial da inteligência artificial frase que funciona como tese e como aviso para quem ainda está posicionado em setores tradicionais.
Da picareta ao processador da Hut 8
A escolha da Hut 8 carrega simbolismo. A empresa construiu reputação extraindo Bitcoin, acumulando galpões cheios de máquinas, contratos de energia de longo prazo e sistemas de refrigeração projetados para rodar 24 horas por dia. Esse mesmo arsenal agora está sendo reaproveitado para treinar e hospedar modelos de IA.
O racional é direto, treinamento e inferência de modelos exigem capacidade computacional instalada em data centers físicos. Quem já tem o imóvel, a conexão elétrica e o resfriamento sai na frente de qualquer concorrente que precise erguer estrutura do zero. Loeb parece concordar com o atalho.
A aposta também não está sozinha no portfólio. A Third Point manteve ou ampliou participações em fornecedores de semicondutores e infraestrutura de IA, como a Broadcom, montando uma carteira que se assemelha a uma exposição completa à cadeia de suprimentos do setor. O gestor tem defendido publicamente o ritmo de investimento das big techs em IA e rejeita comparações com bolha, descrevendo o momento como o início de uma revolução de produtividade.
Mineradoras de Bitcoin viram alvo de tese de IA
O movimento da Third Point segue um padrão já mapeado no setor. A VanEck apontou recentemente que mineradoras americanas estão acelerando o pivô para hospedagem de IA, conforme mostrou a análise sobre o foco da MARA em IA. A própria Nvidia alimentou a tese ao captar US$ 20 bilhões em bonds, recursos que tendem a abrir janela para contratos com mineradoras, como detalhado na cobertura sobre a emissão da Nvidia.
A leitura por trás disso é financeira. Com o Bitcoin negociado a US$ 65.020, a economia da mineração ficou apertada após o último halving. Migrar parte da capacidade para clientes corporativos de IA gera receita previsível em dólar, com margens mais altas e contratos plurianuais algo que blocos de Bitcoin nunca entregaram.
Risco de execução separa vencedores de retardatários
O obstáculo está na engenharia. Um galpão otimizado para ASICs de mineração não é, automaticamente, um data center pronto para servir cargas de IA. Hospedagem corporativa exige redundância elétrica, latência baixa, certificações específicas e contratos com nível de serviço (SLAs) que mineração de Bitcoin nunca demandou. Reconfigurar racks, refrigeração líquida e conectividade pode consumir mais capex do que o mercado precifica hoje.
Para o investidor brasileiro, o sinal serve em duas camadas. Primeiro, reforça que infraestrutura de mineração gera valor próprio, além da cotação do Bitcoin para investidores. Segundo, levanta a pergunta incômoda, as melhores mineradoras de Bitcoin podem valer mais como empresas de IA? O cheque de US$ 40,8 milhões de Loeb sugere que parte de Wall Street já respondeu.
O filing 13F da Third Point está disponível no portal da SEC. Em paralelo, o fluxo institucional para o setor continua, com BlackRock ampliando produtos como o ETF BITA e baleias recolhendo BTC fora das exchanges em meio à consolidação de preço.