- Apenas 20 ações do S&P 500 fecharam em máxima histórica em 29 de maio
- Hartnett vê paralelo com o topo da bolha pontocom em março de 2000
- Estrategista do BofA recomenda títulos longos e setores defensivos
O estrategista-chefe de investimentos do Bank of America, Michael Hartnett, acendeu um alerta para clientes do banco. Em relatório enviado no fim de maio, ele afirma que o atual rali do mercado acionário americano repete um padrão técnico observado pela última vez em março de 2000, semanas antes do estouro da bolha pontocom.
Vinte ações puxam o S&P 500 ao topo
O dado central do relatório, citado pela CNBC, é estreito e específico. No pregão de 29 de maio, quando o S&P 500 fechou em recorde de 7.580,06 pontos, apenas 20 papéis do índice marcaram máximas históricas individuais. Desses 20, somente sete não tinham ligação direta com inteligência artificial.
Hartnett lembra que, no auge da euforia das pontocom, em março de 2000, também foram exatamente 20 ações do S&P 500 nas máximas. A coincidência numérica é, segundo ele, um sintoma claro de mercado dependente de uma narrativa única.
O mês de maio reforçou essa concentração. As fabricantes de chips de memória dispararam de forma agressiva, Micron subiu 88%, SK Hynix avançou 81%, AMD ganhou 46% e Samsung valorizou 44%. Toda a tese girou em torno da demanda por hardware para treinar modelos de IA.
Burry e Tudor Jones reforçam o alerta
Hartnett não está sozinho. O investidor Michael Burry, conhecido por antecipar a crise do subprime em 2008, comparou recentemente o cenário aos “últimos meses da bolha de 1999-2000”. O bilionário Paul Tudor Jones seguiu na mesma linha em entrevista à CNBC, no início de maio.
A BCA Research adicionou um diagnóstico técnico no dia 20 de maio. Em nota, a casa apontou que mesmo com índices de mercados desenvolvidos e emergentes em máximas, “a amplitude das altas tem sido extremamente estreita”. Em jargão de mercado, isso se chama poor breadth e costuma anteceder correções.
O Shiller P/E, indicador de preço sobre lucro ajustado pelo ciclo criado pelo prêmio Nobel Robert Shiller, já passou de 40 vezes. Historicamente, só ultrapassou esse patamar duas vezes, em 2000 e em 2021. Os detalhes do relatório completo de Hartnett podem ser consultados nos materiais públicos do Bank of America Global Research.
Hartnett recomenda defesa e bonds longos
A receita do estrategista para clientes é clara.
“O roteiro pós-bolha para investidores desde 1929 envolve títulos longos e a combinação de setores defensivos ou daqueles que ficaram drasticamente para trás nos últimos meses da bolha”, escreveu Hartnett.
A leitura privilegia consumo básico, utilities e Treasuries de longo prazo em detrimento de tecnologia.
O recado contrasta com o cenário monetário recente. O Federal Reserve manteve juros entre 3,5% e 3,75% na estreia de Kevin Warsh, com tom hawkish que reduziu a aposta em cortes agressivos. Para quem quiser revisar o impacto da decisão, vale acompanhar a estreia de Warsh no comando.
Bitcoin sob US$ 63 mil amplia debate sobre hedge
Para o investidor brasileiro, o alerta do BofA chega num momento delicado para criptoativos. O Bitcoin opera em US$ 62.009, equivalente a cerca de R$ 324,8 mil, acumulando queda na semana após o Fed reforçar o discurso duro. O Ethereum negocia em US$ 1.700, e o XRP testa a faixa de US$ 1,13.
A correlação entre cripto e ações de tecnologia é alta desde 2020. Se a tese de Hartnett se materializar e o Nasdaq corrigir, dificilmente o Bitcoin escapa no curto prazo ainda que parte do mercado argumente que o ativo poderia se descolar como reserva de valor digital. O movimento das baleias acumulando 30 mil BTC sugere que grandes carteiras estão usando a fraqueza recente para comprar, apostando justamente em descolamento.
O contexto local adiciona variáveis. O Copom cortou a Selic para 14,25% no início de junho, o que pode estimular fluxo de varejo para ativos de maior risco incluindo cripto via exchanges nacionais. A leitura de Citadel sobre o Fed em setembro aponta para mais um teste de volatilidade no terceiro trimestre.