Medida do Banco Central deixa criptomoedas mais caras no Brasil

Banco Central Brasil
  • Notificação do Banco Central elevou spreads em stablecoins e encareceu o acesso a dólares digitais no Brasil.
  • Mercado teme que a restrição reduza a liquidez dos pares em reais e pressione preços de Bitcoin, Ethereum e altcoins.
  • Especialistas defendem que o BC diferencie operações próprias de fundos, arbitragem em livro de ordens e intermediação irregular.

A decisão do Banco Central de orientar bancos a suspender operações de câmbio ligadas à importação de ativos virtuais por fundos de investimento começou a alterar a formação de preços no mercado cripto brasileiro. O primeiro efeito apareceu nas stablecoins, ativos digitais lastreados em moedas como o dólar e usados como ponte entre reais, câmbio e criptomoedas nas exchanges locais.

Operadores ouvidos pela reportagem afirmam que o spread em operações com stablecoins saiu de cerca de 0,1% acima do mercado para 0,7% após a notificação. Ao longo do dia, a diferença chegou a superar 1% e, em alguns momentos, alcançou 2%. Esse movimento indica que bancos, mesas e provedores de liquidez reduziram a disposição para fechar operações enquanto aguardam maior clareza sobre o alcance da medida.

A reunião do Banco Central com empresas notificadas, marcada para sexta-feira, 26, deve detalhar a interpretação da autarquia sobre essas estruturas. Até lá, participantes do setor avaliam que a incerteza pode manter o custo das stablecoins elevado e afetar outros ativos negociados em reais, como Bitcoin e Ethereum.

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Medida do Banco Central

O impacto não se limita ao USDT ou ao USDC. As stablecoins funcionam como uma das principais engrenagens de liquidez no mercado brasileiro. Quando seu preço sobe, exchanges e mesas de balcão encontram mais dificuldade para arbitrar diferenças entre o Brasil e o exterior. Com menos arbitradores ativos, os livros de ordens perdem profundidade, os spreads aumentam e o investidor final passa a pagar mais caro para comprar ou vender criptoativos em reais.

Para Regina Pedroso, diretora executiva da ABToken, e Carlos Russo, coordenador de Stablecoins e Pagamentos da entidade, a medida já provocou efeitos imediatos sobre o mercado. Eles afirmam que a insegurança jurídica reduziu os canais de liquidez e elevou os spreads entre o mercado de dólar à vista e o USDT em até 2%.

De acordo com eles, a pressão também atingiu criptomoedas de maior negociação, como o Bitcoin, ao criar um ágio local sobre ativos que normalmente acompanham a cotação internacional. A ABToken pediu ao Banco Central a reavaliação da medida e a abertura de um canal de diálogo com representantes do setor.

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O ponto central da discussão envolve a atuação de fundos de investimento em operações de câmbio para importação de ativos virtuais. O Banco Central entende que determinadas estruturas podem caracterizar intermediação irregular quando fundos participam da compra e venda de criptoativos. Empresas do setor, porém, defendem que a análise precisa separar operações próprias, arbitragem em livro de ordens e estruturas fora do livro com contrapartes relacionadas.

Participantes do mercado afirmam que a principal preocupação do regulador estaria em negociações P2P ou de balcão entre partes previamente definidas. Esse modelo difere da arbitragem realizada no livro de ordens de uma exchange, onde o sistema cruza compras e vendas de forma automática, sem escolha direta da contraparte pelo fundo.

Criptomoedas mais caras no Brasil

Banco Central do Brasil anuncia criação de blockchain própria
Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

Assim, a dúvida preocupa exchanges e mesas de liquidez. Caso o Banco Central aplique a interpretação de forma ampla, fundos que operam apenas em livro de ordens também poderiam reduzir ou interromper suas atividades. Esse movimento diminuiria a liquidez dos pares em reais e tornaria a formação de preços mais instável.

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Além disso, fundos de arbitragem cumprem papel relevante nesse mercado. Eles compram ativos onde encontram preço menor, vendem onde encontram preço maior e ajudam a aproximar as cotações locais das referências internacionais. Quando esses participantes saem do mercado, uma ordem maior passa a deslocar mais o preço. A compra de stablecoins fica mais cara, a venda perde eficiência e o custo se espalha para investidores, empresas e plataformas.

Em um cenário mais extremo, o Brasil poderia registrar um prêmio local semelhante ao chamado “Kimchi Premium”, observado em períodos específicos na Coreia do Sul, quando criptomoedas passaram a negociar acima da referência global por restrições de liquidez e fricções regulatórias. Nesse caso, a valorização em reais não refletiria necessariamente maior demanda orgânica por Bitcoin, mas um custo maior para acessar stablecoins e ativos digitais no mercado doméstico.

Fundos de investimento

Assim, na avaliação de Thiago Amaral, sócio do Barcellos Tucunduva Advogados e especialista em meios de pagamento e criptoativos, o debate exige cautela. Ele afirma que uma restrição ampla pode afetar a liquidez nacional, elevar custos operacionais e criar insegurança jurídica para participantes regulados.

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“Fundos de investimento são veículos regulados e sujeitos à competência da CVM. A sua utilização em estruturas com ativos virtuais não deve ser considerada irregular por si só. A análise relevante está na função econômica exercida pelo fundo em cada caso concreto”, afirma Amaral.

De acordo com o advogado, um fundo pode comprar, vender ou manter ativos virtuais em carteira sem atuar como prestador de serviço de ativos virtuais. O problema surge quando a estrutura reproduz, na prática, uma atividade de intermediação para terceiros, especialmente em operações sob demanda ou com atendimento individualizado.

Assim, Amaral também destaca que reguladores precisam coordenar suas competências. A CVM supervisiona fundos de investimento, enquanto o Banco Central atua sobre câmbio, instituições autorizadas, prestadores de serviços de ativos virtuais e prevenção à lavagem de dinheiro. Para ele, eventuais restrições devem separar estruturas legítimas de provimento de liquidez daquelas que apresentem desvio de finalidade.

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Sou jornalista com mais de 20 anos de trajetória, dedicando a última década exclusivamente ao mercado de criptomoedas e ativos digitais. Minha formação acadêmica inclui o bacharelado em Jornalismo pela FACCAMP e uma pós-graduação em Globalização e Cultura, o que me permite analisar o ecossistema cripto sob uma ótica macroeconômica e social. Ao longo da minha carreira, tive o privilégio de entrevistar figuras centrais da história contemporânea e da tecnologia, como Adam Back, Bill Clinton e Henrique Meirelles. Além da atuação na linha de frente da informação, acompanhei de perto as discussões que moldam o sistema financeiro global em fóruns multilaterais de alto nível, como o G20 e o FMI. Decidi migrar do setor público para o mercado de blockchain por convicção: acredito no potencial técnico e disruptivo dessa tecnologia para redesenhar o futuro da economia digital. Hoje, utilizo minha experiência para traduzir a complexidade deste mercado com rigor jornalístico e visão estratégica.