- ETFs de Bitcoin nos EUA registram saída recorde de US$ 4,5 bilhões em junho
- IBIT, da BlackRock, concentra 79% dos saques com US$ 3,55 bilhões no mês
- Holdings dos fundos caem abaixo de 1,25 milhão de BTC e ficam menores que há um ano
Os ETFs à vista de Bitcoin listados nos Estados Unidos encerraram junho com o pior desempenho mensal desde a estreia dos produtos, em janeiro de 2024. O saldo negativo de US$ 4,5 bilhões supera qualquer mês anterior e escancara o esfriamento da demanda institucional pelo ativo em um momento em que o BTC opera perto de US$ 58.585, equivalente a cerca de R$ 303 mil na cotação atual.
Os dados são da SoSoValue e foram confirmados por levantamento paralelo da Farside Investors. Com o resultado de junho, o acumulado de 2026 já mostra saques líquidos de aproximadamente US$ 5,5 bilhões. O ingresso total desde o lançamento dos fundos recuou para cerca de US$ 51,2 bilhões, ante um pico bem mais folgado antes da correção deste ano.
IBIT da BlackRock concentra 79% dos saques
O iShares Bitcoin Trust (IBIT), da BlackRock, foi o principal responsável pela hemorragia. Sozinho, o fundo perdeu US$ 3,55 bilhões em junho, o equivalente a 79% de toda a saída líquida do segmento. O produto, que era símbolo do apetite institucional em 2024 e 2025, virou o epicentro da realização de lucros neste ciclo de correção.
Julio Moreno, chefe de pesquisa da CryptoQuant, publicou no X um dado que resume a inversão de fluxo: o volume total de Bitcoin custodiado pelos ETFs americanos hoje é menor do que era há exatamente um ano. As posições combinadas caíram abaixo de 1,25 milhão de BTC, indicador direto de que gestores estão devolvendo cotas em ritmo mais rápido do que entra dinheiro novo.
O paradoxo dos números aparece quando se olha o acumulado histórico. Segundo a SoSoValue, os ingressos líquidos totais desde 2024 subiram 4,6% em relação ao mesmo período do ano passado, indo de US$ 49 bilhões para US$ 51,2 bilhões. Mesmo assim, o estoque físico de BTC dentro dos fundos encolheu — reflexo tanto da queda de preço quanto do resgate estrutural dos últimos meses.
Plano de Saylor fica pequeno diante da fuga
A escala do resgate joga luz sobre o programa de monetização anunciado pela Strategy na segunda-feira. A empresa de Michael Saylor autorizou vender até US$ 1,25 bilhão em Bitcoin para bancar dividendos das ações preferenciais. O valor equivale a menos de 28% do que os ETFs perderam apenas em junho.
A reação ao anúncio dividiu o mercado. As ações Classe A da Strategy (MSTR) chegaram a subir 12% na segunda-feira, ultrapassando US$ 90, mas devolveram o ganho no dia seguinte e fecharam a US$ 86,93, com queda de 6,2%. A ação preferencial STRC, por outro lado, avançou para US$ 84,86. Analistas como Peter Schiff argumentam que o volume final vendido pode superar os US$ 3,25 bilhões se a pressão sobre o balanço não ceder.
Efeito cambial amplifica perda no Brasil
Para o investidor brasileiro, a leitura vai além do fluxo americano. Com o dólar cotado a R$ 5,1784, a queda do Bitcoin em BRL foi amortecida nos últimos meses, mas a correlação entre saída de ETFs e pressão vendedora no BTC continua funcionando como termômetro para as principais exchanges locais. Produtos análogos listados na B3 tendem a replicar o movimento com defasagem de um a três pregões.
Vale um contraponto histórico. Em fevereiro deste ano, quando os fundos americanos registraram sequência de oito dias no vermelho, o IBIT já havia liderado a saída com aproximadamente US$ 300 milhões em um único dia. O padrão se repete agora em escala dez vezes maior, o que sugere que a fase de acumulação institucional agressiva vista em 2024 deu lugar a um ciclo de gestão defensiva.
No plano regulatório, a SEC revisa regras para ETFs de cripto em paralelo à discussão do CLARITY Act. Uma eventual flexibilização pode abrir espaço para produtos com resgate em espécie e reduzir o atrito operacional que hoje penaliza o fluxo bidirecional dos fundos americanos.