- Coinbase encadeia 13 trimestres seguidos de EBITDA ajustado positivo
- Strategy registra prejuízo não realizado de US$ 14,46 bilhões em Bitcoin
- Executivos da MSTR venderam ações em junho apesar da tese bullish
Os resultados do primeiro trimestre de 2026 escancararam a distância entre dois modelos rivais de exposição a cripto no mercado americano. A Coinbase (NASDAQ: COIN) opera como uma máquina diversificada de taxas, enquanto a Strategy (NASDAQ: MSTR), antiga MicroStrategy, virou um veículo alavancado de Bitcoin com um negócio de software residual. Com o BTC negociado a US$ 63.890 queda acumulada de 26,66% no ano, o contraste ficou impossível de ignorar.
A comparação importa para o investidor brasileiro que quer exposição indireta ao Bitcoin via ações listadas nos EUA. E os números do Q1 mostram que apostar em uma tesouraria alavancada custou caro.
Strategy registra prejuízo de US$ 14 bilhões em BTC
A empresa comandada por Michael Saylor reportou receita de apenas US$ 124,30 milhões no trimestre e prejuízo por ação de US$ 38,25, errando o consenso de -US$ 18,98 em impressionantes 101,5%. O rombo veio do prejuízo não realizado de US$ 14,46 bilhões em Bitcoin sob a regra contábil de valor justo, adotada após a mudança nas normas do FASB.
Pior: as obrigações com dividendos preferenciais somaram US$ 229,53 milhões em um único trimestre. É um custo fixo que continua correndo independentemente da cotação do BTC. A empresa levantou US$ 11,68 bilhões no ano para comprar mais Bitcoin, mas, como o próprio CEO Phong Le admitiu, tudo isso aconteceu “durante um bear market do Bitcoin”. O flywheel emperrou.
Os sinais internos reforçam a preocupação. Foram 177 transações de insiders em regime líquido de venda, com Phong Le e o CFO Andrew Kang despejando quantidades relevantes de ações ordinárias no início de junho. O Polymarket precifica a probabilidade de margin call em apenas 5,5%, mas o mercado começou a testar a tese central da companhia.
Coinbase encadeia 13 trimestres de EBITDA positivo
Do outro lado, a Coinbase registrou receita de US$ 1,41 bilhão no Q1, queda de 30,54% em base anual, e prejuízo por ação de US$ 1,49 puxado por uma marcação a mercado de US$ 482,4 milhões em cripto mantido para investimento. O que sustentou o resultado foi o segmento de assinaturas e serviços: US$ 583,5 milhões, ou 44% da receita líquida. Dentro disso, a receita com stablecoins somou US$ 305 milhões.
O EBITDA ajustado ficou positivo em US$ 303,3 milhões o 13º trimestre consecutivo no azul por essa métrica. O corte de 14% no quadro de funcionários gerou economia estimada em US$ 500 milhões, dando fôlego operacional em pleno inverno do mercado.
A exchange também diversifica receitas em novas frentes. Derivativos de varejo já rodam acima de US$ 200 milhões anualizados. Mercados de previsão atingiram US$ 100 milhões anualizados. E a rede Base, camada 2 da Coinbase, processa mais de 99% do volume de stablecoins ligado a agentes autônomos de IA. É uma tese muito diferente de “comprar BTC alavancado”.
BDRs e exposição pelo investidor brasileiro
Para o investidor local, a diferença estrutural pesa. A B3 não oferece BDR de COIN nem de MSTR, o que empurra o brasileiro para corretoras com acesso ao mercado americano ou para os ETFs de Bitcoin negociados aqui, como HASH11 e QBTC11. Ainda assim, o debate sobre qual veículo compõe melhor com o ciclo cripto influencia o fluxo global e, por tabela, o preço do BTC em reais, hoje em R$ 327.297.
O mercado brasileiro já viu de perto o risco de tesourarias corporativas concentradas, a venda de 3.588 BTC pela Strategy acendeu alertas comparando o caso a episódios como o da FTX. Ao mesmo tempo, o avanço regulatório de stablecoins nos EUA, com o GENIUS Act e prazo até julho de 2026, favorece diretamente o braço de USDC operado em parceria pela Coinbase.
Próximo teste é a margem de USDC e o mNAV da MSTR
O guidance da Coinbase para o Q2 aponta receita de assinaturas entre US$ 565 milhões e US$ 645 milhões. O ponto de atenção é a economia do USDC, com competidores como Open USD tentando roer participação. Na Strategy, compressão do prêmio mNAV reduz combustível para emissões e transforma dividendos trimestrais em peso no balanço.