Bitcoin segura US$ 64 mil após Fed reacender risco de alta de juros

  • Bitcoin recua 2% e fica perto de US$ 64.322 após FOMC sinalizar alta de juros
  • 9 dos 18 dots do Fed agora projetam ao menos uma alta até dezembro
  • Glassnode aponta US$ 77,2 mil como limiar entre regime de baixa e alta

O Bitcoin segura a faixa dos US$ 64 mil mesmo depois de o Federal Reserve reabrir, de forma inesperada, a porta para uma alta de juros ainda em 2026. A reação travada do mercado mostra que a tese de estabilização frágil voltou ao centro do debate.

Nesta quarta-feira (18), o ativo era negociado a US$ 64.322 (R$ 327.013), com queda de 1% em 24 horas, segundo dados de mercado em tempo real. A mínima intradiária de terça (17) tocou US$ 63.950, depois que a decisão do FOMC e o novo dot plot ajustaram bruscamente as expectativas de política monetária.

Dot plot vira de corte para alta em três meses

O Fed manteve a meta entre 3,50% e 3,75%, sem alteração. O recado, porém, veio nas projeções individuais: 9 dos 18 dots apontam pelo menos uma alta de juros até o fim do ano, contra 8 que defendem manutenção e apenas 1 que ainda enxerga corte. Três meses atrás, a discussão nas mesas era quando cortar.

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Os mercados de juros reagiram em minutos. Operadores passaram a precificar cerca de 72% de chance de alta em outubro e aproximadamente 78% em dezembro, segundo o monitor do CME acompanhado pelo MarketWatch. O calendário e os materiais oficiais do FOMC reforçam que a estreia de Kevin Warsh como presidente do colegiado não trouxe um dot pessoal, deixando o documento com 18 projeções em vez das 19 habituais.

O movimento contaminou todas as classes de risco. O Dow Jones recuou 1,01%, o S&P 500 caiu 1,28% e o Nasdaq perdeu 1,45%. A taxa do Treasury de 10 anos subiu a 4,467% e o dólar se fortaleceu. Para o investidor brasileiro, a leitura imediata é dupla: o real, que abriu o dia a R$ 5,08, tende a sofrer pressão adicional caso o diferencial de juros americano se estreite, justamente quando o Copom acelera o ciclo de cortes da Selic.

21Shares mira US$ 70 mil como gatilho

Matt Mena, estrategista de pesquisa cripto da 21Shares, descreveu a manutenção como uma formalidade que esconde sinal hawkish. Ele aponta inflação em máxima de três anos, pressionada pelo choque de energia ligado ao conflito com o Irã, como o motor da virada.

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Mena vê US$ 70 mil como o nível que o Bitcoin precisa romper com convicção para abrir caminho a US$ 75 mil e, em sequência, US$ 80 mil. No cenário mais otimista, a projeção de US$ 100 mil até o terceiro trimestre permanece de pé, mas depende dessa escalada. O estrategista cita ainda a alta do BoJ para 1% como força adicional, ameaçando o carry trade do iene que sustentou ativos de risco nos últimos meses.

On-chain mostra reparo incompleto

Os dados da Glassnode dão a moldura técnica. O Bitcoin opera cerca de 15% abaixo do True Market Mean, que está em US$ 77,2 mil — o limiar que a empresa trata como divisor entre regime estrutural de baixa e de alta. Enquanto o preço não recuperar essa marca, a leitura on-chain permanece em território bear.

O MVRV dos detentores de curto prazo subiu de 0,81 para 0,90 na semana, mas continua abaixo do break-even de 1,0. O custo médio dessa coorte está em US$ 72,6 mil, o que significa que compradores recentes seguem cerca de 10% no prejuízo. Cada tentativa de rali esbarra nesse estoque de potenciais vendedores. A Realized Cap contraiu 1,45% em 90 dias, para US$ 1,07 trilhão, mas a variação de 7 dias quase zerou (-0,18%), sinalizando que o sangramento de capital perde força.

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Gamma cluster em US$ 68 mil trava volatilidade

A microestrutura melhorou. Livros de ordens spot recompõem o lado da compra, a volatilidade implícita normalizou em todos os vencimentos e o skew de opções recuou dos extremos. O maior aglomerado de gamma negativo está em torno de US$ 68 mil, com exposição vendida entre US$ 66 mil e US$ 71 mil. Acima disso, o gamma vira positivo apenas no fim dos US$ 70 mil.

Gerry O’Shea, da Hashdex, prevê que o BTC siga oscilando entre US$ 60 mil e US$ 70 mil enquanto não houver catalisador — citando a eventual aprovação do CLARITY Act e a continuidade do cessar-fogo entre EUA e Irã como gatilhos possíveis. Enquanto isso, IPOs e ações de IA seguem disputando o capital que poderia ir para cripto.

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Jornalista, assessor de comunicação e escritor. Escreve também sobre cinema, séries, quadrinhos, já publicou dois livros independentes e tem buscado aprender mais sobre criptomoedas, o suficiente para poder compartilhar o conhecimento.