- ETFs registram saída líquida de US$ 353 milhões em dois dias
- Bitcoin negocia abaixo do custo médio de holders recentes
- Decisão do Fed mantém juros e aumenta pressão sobre ativos de risco
O Bitcoin enfrenta seu teste mais difícil desde o início da recuperação de abril. A criptomoeda opera em US$ 78.160, pressionada pela saída de US$ 353 milhões dos ETFs em apenas dois dias e pela manutenção dos juros americanos entre 3,5% e 3,75% pelo Federal Reserve.
A reversão dos fluxos institucionais acontece no pior momento possível. Depois de atrair US$ 2,43 bilhões em abril e sustentar alta de 14,46% no preço, os fundos negociados em bolsa viram o cenário mudar drasticamente nos dias 27 e 28 do mês.
BlackRock lidera retiradas recordes
O movimento mais preocupante veio do IBIT da BlackRock, principal veículo institucional do mercado. O fundo registrou saída de US$ 112,2 milhões em 28 de abril, sinalizando mudança na postura dos grandes investidores. A Fidelity havia iniciado o movimento um dia antes, retirando US$ 150,4 milhões de seu FBTC.
Durante a maior parte de 2026, as retiradas dos ETFs eram explicadas pela rotação de investidores saindo do GBTC da Grayscale, o trust convertido em ETF. Agora, a fraqueza se espalhou para todos os principais fundos, removendo o colchão institucional que protegia o Bitcoin de quedas mais acentuadas.
Os ETFs funcionam como canal direto entre o sentimento macro e a demanda por Bitcoin. Quando esse canal enfraquece antes de um evento importante de política monetária, o mercado perde seu principal amortecedor estrutural.
Zona de custo define próximo movimento
Mais importante que a proximidade dos US$ 80.000 é onde o Bitcoin está em relação aos custos de aquisição dos investidores. A criptomoeda negocia ligeiramente acima da True Market Mean de US$ 77.990, mas abaixo do custo base dos holders de curto prazo em US$ 78.770.
A True Market Mean representa o preço médio de aquisição das moedas em circulação ativa, excluindo supply perdido ou inativo. Já o custo dos holders de curto prazo reflete o preço médio das moedas movimentadas nos últimos 155 dias.
Negociar abaixo de ambos os níveis simultaneamente significa que o participante médio recente está no vermelho. Nesse ambiente psicológico, qualquer recuperação tende a ser vendida por investidores buscando sair no zero a zero.
A faixa entre US$ 77.990 e US$ 78.770 concentra resistência comprimida. Atravessá-la exige compradores mais agressivos do que os dados atuais dos ETFs sugerem existir. O nível de capitulação alta fica em aproximadamente US$ 77.310, perder esse suporte sinalizaria deterioração mais profunda.
Fed complica cenário para ativos de risco
A decisão do Fed de manter os juros não surpreendeu o mercado precificava 100% de probabilidade de pausa. O tom cauteloso sobre inflação e os riscos geopolíticos do conflito com o Irã, porém, validaram a fraqueza atual e transformaram a zona de custo em teto, não trampolim.
Esta pode ter sido a última coletiva de Jerome Powell como presidente do Fed. Kevin Warsh, indicado por Trump, deve assumir o comando em junho, adicionando incerteza ao cenário de política monetária.
Para investidores brasileiros, o ambiente externo mais restritivo tende a pressionar o real e encarecer posições em dólar. ETFs de Bitcoin negociados na B3 podem sofrer com a combinação de queda do ativo base e valorização da moeda americana.
O Bitcoin já demonstrou capacidade de recuperação quando as condições cooperam. Em abril, chegou a testar US$ 78.000 com suporte institucional robusto. O desafio agora é manter a recuperação crível com ETFs em modo de saída e holders recentes ainda no prejuízo.
Manter-se acima de US$ 77.300 preserva a tese de alta. Reconquistar a faixa US$ 78.000-78.770 logo após o Fed sinalizaria retomada do controle pelos compradores. Romper US$ 80.000 de forma limpa confirmaria que a recuperação de abril foi base sólida, não topo de distribuição.
Sem esses movimentos, a sessão pós-Fed ainda pode transformar o que parecia recuperação bem-sucedida em zona de distribuição que vendedores aproveitaram. Os próximos dias definirão se o suporte institucional retorna ou se o Bitcoin enfrentará maio sem seu principal motor de demanda.

