- Transações diárias na rede Bitcoin ultrapassam 800 mil e se aproximam do pico de 2024
- Cohorts abaixo de 0,01 BTC respondem por 80% das transferências diárias
- Mempool atinge 128 mil transações pendentes e pressiona taxas no curto prazo
A rede Bitcoin voltou a operar em ritmo semelhante ao do pico de 2024, mas o motor por trás dessa aceleração mudou. Relatório publicado pela CryptoQuant aponta que o volume diário superou 800 mil transações, mais que o dobro do piso registrado em 2025. O detalhe que muda a interpretação: a maior parte desse movimento não tem origem econômica.
O índice de atividade da rede rompeu a tendência de alta pela primeira vez desde dezembro de 2024 e está apenas 7% abaixo do recorde histórico cravado em setembro do mesmo ano. Para a casa de análise, é o primeiro regime positivo de atividade desde meados de 2024 — e isso contrasta com o ciclo de queda que o preço do Bitcoin atravessa.
Hoje, o BTC é negociado próximo de US$ 64.553, equivalentes a cerca de R$ 332,5 mil. O ativo acumula recuo de aproximadamente 17% em 30 dias e opera quase 50% abaixo da máxima histórica de US$ 126.080 registrada em outubro de 2025.
Ordinals e Runes dominam 80% das transferências

O que sustenta a atividade é uma onda de transações de valor irrisório. Segundo a CryptoQuant, transferências abaixo de 0,01 BTC e abaixo de 0,001 BTC somam agora cerca de 80% do total diário, contra 44% em 2023. Ou seja, o número impressiona, mas o conteúdo econômico encolheu.
O empurrão vem de protocolos construídos em cima do Bitcoin: Ordinals, Runes, tokens BRC-20 e serviços de carimbo de tempo que usam o campo OP_RETURN. A remoção do limite de bytes desse campo, decidida no ano passado após uma disputa acalorada entre desenvolvedores, abriu espaço para um salto no uso. A casa de análise descreve esses protocolos como geradores de altos volumes de transações de valor poeira.
O efeito colateral aparece no mempool, espaço onde transações aguardam confirmação. A fila chegou a cerca de 128 mil transações pendentes, maior nível desde fevereiro de 2025. O congestionamento se concentra em ordens de baixa taxa, mas a CryptoQuant alerta que a manutenção desse cenário pode pressionar comissões para usuários que precisam de confirmação rápida — algo sensível para exchanges, custodiantes e desks de OTC.
Divergência entre uso e preço quebra padrão histórico
Em ciclos anteriores, picos de transações andavam lado a lado com altas de preço. A correlação se justificava porque o aumento de atividade refletia demanda financeira real — compras, transferências entre exchanges, liquidações. Desta vez, o padrão se rompeu. A rede está cheia, mas com uso que se parece mais com armazenamento de dados do que com transferência de capital.
Esse descolamento tem implicações práticas para quem opera o ativo. Indicadores on-chain clássicos baseados em contagem de transações, como NVT e atividade ajustada, perdem poder de leitura quando o ruído de Ordinals e BRC-20 domina o gráfico. Investidores que utilizam essas métricas para timing precisam ajustar a leitura — ou migrar para variáveis baseadas em valor transferido em dólar, fluxo para exchanges e dominância de baleias.
Mineradoras ganham fôlego em taxas enquanto preço pressiona
Assim, para mineradoras listadas, o aumento de congestionamento é alívio bem-vindo num momento de receita comprimida. Companhias como Marathon, Riot e a brasileira Bitdeer dependem cada vez mais das taxas para complementar o subsídio do bloco após o halving.
Quanto mais cheio o mempool, maior o fee médio que cada bloco arrecada — e maior a margem operacional, mesmo com BTC abaixo de US$ 65 mil. O movimento contrasta com o cenário recente, em que a reserva da Bitdeer recuou para 171 moedas em meio ao pivô para infraestrutura de IA.