- BofA projeta três altas de juros do Fed entre setembro e novembro de 2026
- Banco vê fundos federais subindo 75 pontos-base no ano contra consenso de Wall Street
- Cenário hawkish pressiona apetite a risco e bate em Bitcoin e ações de tecnologia
O Bank of America jogou um balde de água fria nas apostas de afrouxamento monetário nos Estados Unidos. Em relatório divulgado nesta segunda-feira, 22 de junho, o BofA Global Research informou que agora espera o Federal Reserve elevar a taxa básica de juros em 75 pontos-base até o fim de 2026, contrariando o consenso de Wall Street e o discurso da Casa Branca.
A revisão prevê altas em três reuniões consecutivas do Federal Open Market Committee, setembro, outubro e novembro. Em 2027, o banco enxerga estabilidade. Era exatamente o oposto que o mercado precificava há poucas semanas, quando a chegada de Kevin Warsh à presidência do Fed alimentava expectativa de uma virada dovish.
Warsh muda o tom e pega mercado de surpresa
A guinada do BofA tem dois gatilhos. O primeiro foi a entrevista coletiva de Warsh após o último FOMC, em que o novo chair sinalizou desconforto com o nível persistente da inflação. O segundo é a resiliência da economia americana, sustentada por dados de emprego que se recusam a desacelerar no ritmo esperado pelos modelos do banco central.
A inflação nos EUA segue acima da meta de 2% há anos, e parte do mercado já especulava que o Fed teria abandonado, na prática, o mandato de estabilidade de preços. A leitura do BofA inverte essa narrativa: para evitar perda de credibilidade, Warsh teria escolhido apertar.
O ponto delicado é político. Donald Trump passou meses cobrando publicamente o ex-chair Jerome Powell por cortes mais agressivos, com o argumento de baratear o serviço da dívida americana e turbinar Wall Street. O atrito chegou a desembocar em uma investigação criminal contra Powell por causa de uma reforma cara na sede do Fed.
Yellen fala em ‘republiqueta de bananas’
Janet Yellen, ex-chair do Fed e ex-secretária do Tesouro de Joe Biden, classificou a pressão de Trump por juros menores como conduta de ‘banana republic’. Se Warsh agora subir a taxa básica em vez de cortar, o movimento será lido como prova de que o Fed manteve a independência institucional, mesmo sob fogo cruzado da Casa Branca.
Para o mercado cripto, o recado é direto, a janela de liquidez barata que costuma turbinar ativos de risco vai demorar mais para abrir. Juros elevados fortalecem o dólar, reduzem demanda por Bitcoin e pressionam tecnologia, motor do último ciclo. O próprio BofA já comparou o rali atual de inteligência artificial à bolha das pontocom.
Bitcoin em US$ 65 mil sente o vento contrário
O Bitcoin opera nesta segunda a US$ 65.507 (R$ 335.646), com alta de 1,5% em 24 horas, mas ainda longe do pico histórico. Ethereum negocia a US$ 1.762, e Solana está em US$ 74,86. Caso o cenário do BofA se confirme, a tese de retomada acima de US$ 70 mil no curto prazo perde força derivativos já mostram vencimentos bilionários concentrados em strikes abaixo do spot.
No Brasil, o efeito colateral vem pelo câmbio. Com o dólar em R$ 5,1458 e o Copom obrigado a manter Selic alta para defender o real, o investidor local enfrenta um quadro duplamente apertado, cripto pressionada lá fora e renda fixa cada vez mais competitiva aqui dentro. Exchanges domésticas relatam, desde maio, queda no volume de pessoa física, enquanto a tesouraria direta volta a capturar fluxo de varejo.
Warsh terá de bater de frente com Trump em setembro
A primeira prova de fogo é a reunião de setembro. Se o Fed entregar a alta projetada pelo BofA, Warsh oficializa o rompimento com a narrativa de Trump e sinaliza um ciclo prolongado de aperto. Caso contrário, o banco revisará projeções e o mercado cripto poderá retomar a busca por novas máximas. O BofA Global Research deve atualizar o cenário após o próximo dado de payroll.