- Strategy compra 520 BTC por US$ 34,9 milhões a US$ 67.068 por moeda
- Reserva em dólar salta para US$ 1,4 bilhão após aporte de US$ 300 milhões
- STRC fecha quinta a US$ 88,59 e aciona mecanismo de autodefesa de preço
A Strategy, de Michael Saylor, ampliou a posição em Bitcoin e ao mesmo tempo reforçou seu colchão de liquidez em dólar. A decisão veio em meio à pressão sobre o STRC, a ação preferencial perpétua da companhia que deveria orbitar US$ 100 e perdeu o piso de US$ 90 na semana passada.
Segundo documento 8-K protocolado na SEC, a empresa adquiriu 520 BTC por US$ 34,9 milhões entre 15 de junho e domingo. O preço médio da compra ficou em US$ 67.068 por moeda, ligeiramente acima da cotação atual do Bitcoin, negociado a US$ 64.859.
Com a operação, o estoque total chegou a 847.363 BTC. O desembolso acumulado da tesouraria soma US$ 64,1 bilhões, com custo médio histórico de US$ 75.651 por unidade — patamar que coloca parte da posição em prejuízo no preço de tela, mas que Saylor trata como irrelevante diante do horizonte de longuíssimo prazo do programa.
Reserva em dólar salta para US$ 1,4 bilhão
O movimento mais relevante do comunicado, porém, não foi a compra de Bitcoin. A Strategy adicionou US$ 300 milhões ao caixa em dólar, levando a chamada USD Reserve a US$ 1,4 bilhão. O número inclui receitas esperadas de vendas via programa at-the-market (ATM) ainda não liquidadas.
O fundo de liquidez existe para sustentar o pagamento de dividendos das ações preferenciais e honrar obrigações de dívida. “A Strategy planeja continuar reabastecendo a USD Reserve ao longo do tempo, conforme as condições de mercado, para sustentar a qualidade de crédito de seus títulos de Digital Credit”, afirma o protocolo enviado à SEC. A leitura imediata é defensiva: priorizar caixa em vez de empilhar BTC sinaliza que a administração quer blindar o serviço da dívida antes de retomar o ritmo de acumulação visto em ciclos anteriores.
Ações MSTR financiam compra e caixa
O combustível das duas frentes foi o mesmo: emissão de ações Classe A. A companhia levantou US$ 335,5 milhões pelo programa ATM no período. Desse total, US$ 34,9 milhões viraram Bitcoin e US$ 300 milhões engrossaram o caixa.
A divisão revela uma mudança de prioridade. Em janelas anteriores, praticamente todo o dinheiro captado via ATM ia para compra de BTC. Agora, menos de 11% do que entrou pelo equity virou criptoativo. O restante foi parar na reserva em dólar — uma realocação que ajuda a entender por que o ritmo de novas aquisições desacelerou nas últimas semanas.
As ações MSTR recuaram 3,46% na quinta, fechando a US$ 112,53 antes do feriado de sexta nos EUA. O STRC, preferencial perpétua, caiu 0,46% para US$ 88,59 e voltou a ser negociado a US$ 90,59 no pré-mercado de segunda. O papel é peça central do quebra-cabeça financeiro montado por Saylor e já chegou a despencar 17% em relação ao valor de referência.
Samson Mow explica mecanismo de autodefesa do STRC
O bitcoiner Samson Mow afirmou em publicação no X que o STRC carrega um “mecanismo de autorreparo”. Quando o preço cai abaixo de US$ 100, a empresa interrompe a emissão de novos papéis pelo ATM, restringindo a oferta. Preços menores também elevam o yield efetivo para quem compra, o que estimula demanda e empurra o ativo de volta ao valor de referência.
Para o investidor brasileiro, o sinal é duplo. A Strategy continua sendo o maior comprador corporativo de Bitcoin do planeta, mas mostrou pela primeira vez disposição clara em segurar capital em dólar em vez de converter tudo em BTC. Em paralelo, exchanges locais que atuam como porta de entrada para fundos institucionais devem observar com atenção: o modelo de tesouraria copiado por dezenas de empresas listadas — incluindo nomes brasileiros que estudam estrutura semelhante na esteira da estratégia de Saylor — depende justamente da credibilidade desse arranjo de crédito.
O próximo gatilho está no comportamento do STRC. Se o papel voltar à faixa dos US$ 100, a ATM destrava emissão e a Strategy pode acelerar compras novamente. Se permanecer descontado, o caixa em dólar tende a crescer mais rápido que o estoque de BTC.