- John D’Agostino afirma que fundos soberanos aceleram compras abaixo de US$ 65 mil
- ETFs spot de Bitcoin mantêm US$ 750 bilhões em exposição mesmo após correção
- Executivo descarta risco de alavancagem perigosa entre grandes detentores
A correção recente do Bitcoin abaixo de US$ 60 mil assustou parte do varejo, mas reacendeu o apetite institucional. É o que diz John D’Agostino, head de estratégia institucional da Coinbase, em entrevista à CNBC. O ativo opera nesta segunda em torno de US$ 63.636, ou aproximadamente R$ 329.731, após subir 2,5% em 24 horas.
Segundo o executivo, family offices, fundos soberanos e veículos de investimento estatais do Oriente Médio estão usando a queda para acumular. A leitura é direta: quem estava disposto a pagar US$ 125 mil em outubro tem ainda mais interesse no ativo a US$ 60 mil.
Family offices aceleram compras na queda
D’Agostino afirmou que não enxerga sinais de pânico entre os grandes detentores. Pelo contrário. Muitos investidores institucionais, segundo ele, estão buscando capital adicional para ampliar posições nos níveis atuais. A tese de longo prazo, na avaliação do executivo, segue intacta.
O argumento se apoia em infraestrutura. O mercado de 2026 não é o de 2022. Há ETFs spot consolidados, custódia regulada, contratos derivativos na CME e um arcabouço regulatório em construção nos Estados Unidos. A tramitação do CLARITY Act no Senado faz parte desse pano de fundo.
Os ETFs spot de Bitcoin são o termômetro mais citado. Mesmo com a queda recente, o conjunto desses fundos mantém mais de US$ 750 bilhões em exposição agregada. O varejo recuou um pouco, mas a sangria que se esperaria em um movimento de capitulação não apareceu — nem no varejo, nem nas mesas institucionais.

O que derrubou o preço, segundo a Coinbase
Além disso, o executivo concorda com a leitura de que o ambiente macro pesou. Juros ainda altos nos Estados Unidos, rotação de capital para outros ativos, postura risk-off de gestores e demora na clareza regulatória entraram na conta. A tensão envolvendo o Irã e o Estreito de Ormuz também aparece como fator de risco geopolítico no radar.
Ainda assim, D’Agostino classifica a volatilidade como esperada para um ativo com características de commodity. Nada nos fundamentos, em sua leitura, justifica revisar a tese estrutural. A queda do Bitcoin dos US$ 70 mil para a casa dos US$ 59,5 mil na semana passada teve compradores prontos no piso psicológico de US$ 60 mil.
A narrativa otimista, porém, não é unânime no mercado. Dados on-chain mostram baleias depositando mais de 14 mil BTC na Binance nos últimos dias, padrão historicamente associado a vendas. E há sinais de cautela em derivativos, com posições compradas alavancadas sendo liquidadas em escala.
O que muda para quem compra em reais
Para o investidor brasileiro, a janela tem leitura específica. Com o dólar a R$ 5,18, o Bitcoin em torno de R$ 330 mil volta ao patamar visto pela última vez no início do ano. Exchanges locais como Mercado Bitcoin, Foxbit e Bitso registraram aumento de fluxo comprador em ordens de varejo desde a perda dos US$ 60 mil, em padrão semelhante ao observado nas correções de 2022 e 2023.
Assim, a regulação interna ajuda essa leitura. A IN 1.888 da Receita Federal e o marco legal de prestadores de serviços de ativos virtuais, fiscalizados pelo Banco Central, deram mais previsibilidade tributária para alocações de pessoa física e jurídica. Isso reduz o atrito que travava grandes alocações no passado.
Há, contudo, ressalvas. Strategy, principal proxy corporativa do Bitcoin, registra prejuízo não realizado superior a US$ 11 bilhões em sua tesouraria. Mineradoras vivem o pior ambiente operacional pós-halving, com hashrate em retração. A leitura institucional otimista de D’Agostino convive com indicadores on-chain que ainda apontam estresse no curto prazo, e essa dissonância é o que define o tom do mercado nas próximas semanas. A entrevista original foi concedida ao canal CNBC.