- Deutsche Bank vê ouro a US$ 3.800 com 3 a 4 altas de juros do Fed
- Banco corta meta do metal para US$ 4.300 no terceiro trimestre
- Ouro à vista já recua 21% desde início da guerra EUA-Irã
O Deutsche Bank jogou um balde de água fria sobre o rali do ouro. O banco alemão alertou que o metal pode recuar a cerca de US$ 3.800 por onça caso o Federal Reserve entregue de três a quatro altas de juros, cenário que aprofundaria a perda em curso desde março.
A advertência veio acompanhada de um corte expressivo nas projeções. O Deutsche reduziu a meta para o terceiro trimestre a US$ 4.300 a onça, mais de 22% abaixo da estimativa anterior. Para o fechamento de 2026, o alvo caiu para US$ 4.800 uma revisão de cerca de 17% em relação ao número antigo.
Hawks expulsam bulls do mercado de ouro
O analista Michael Hsueh resumiu o momento em frase direta, “os hawks estão expulsando os bulls” do ouro. A meta revisada para o quarto trimestre supõe que o Fed mantenha juros parados. Qualquer rodada de aperto adicional muda completamente a conta.
De acordo com o cálculo do banco, três a quatro altas empurrariam o metal cerca de 7% abaixo do patamar atual. O ouro à vista já furou os US$ 4.100 e operava perto de US$ 4.088 na quarta-feira, com queda diária de quase 1%. A baixa acumulada desde o pico de março passou de 21%.
A repactuação das expectativas para a política monetária americana, somada a dados macroeconômicos resilientes nos EUA, pressiona o bullion. Juros mais altos elevam os rendimentos reais e ativos que não pagam cupom, como o ouro, perdem atratividade nesse ambiente. A leitura é a mesma que o Bank of America tem repetido, ao projetar até três altas de juros em 2026.
Warsh mantém juros, mas divide o FOMC
Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, manteve os juros inalterados em seu primeiro encontro do FOMC. O detalhe perturbador para os bulls do ouro está na ata, 9 dos 18 membros do comitê esperam pelo menos uma alta em 2026. O tom hawkish ganhou corpo justamente quando o mercado se acostumara a precificar cortes.
O movimento do ouro contrasta com o início do ano. Em janeiro, o metal renovou recordes históricos, impulsionado pela escalada militar entre Estados Unidos e Irã, que turbinou preços de energia. A inflação reativada pelo choque energético acabou virando combustível para apostas em altas de juros exatamente o cenário que agora derruba o bullion.
O Goldman Sachs trilhou caminho parecido na semana passada. O banco reduziu a meta de fim de ano para US$ 4.900 a onça, ante US$ 4.500 anteriormente projetados. A tendência entre as casas é clara, rever para baixo, sem abandonar a tese estrutural de alta no longo prazo.
Ouro, cripto e o bolso do investidor brasileiro
Para quem opera no Brasil, o capítulo do ouro tem leitura cruzada com o universo cripto. O mesmo vetor que pressiona o metal Fed hawkish e rendimentos reais maiores costuma castigar o Bitcoin. Nesta quarta, o BTC opera a US$ 59.400 (R$ 309.116), com queda de 4,2% em 24 horas, num movimento que dialoga com a tese do estrategista da BlackRock sobre liquidez sendo sugada do mercado.
O Ethereum acompanha, cotado a US$ 1.569 e amargando recuo de 4,7%. Solana e XRP completam o quadro de aversão a risco, com perdas no dia. A correlação não é coincidência, ouro e Bitcoin disputam o rótulo de hedge contra desvalorização monetária, e ambos respondem mal a um Fed que insiste em tirar liquidez do sistema.
No mercado brasileiro, ETFs locais como GOLD11 e investidores que carregam posições em GLD e IAU via brokers internacionais já sentem a reversão. Com dólar a R$ 5,1972, a queda em USD é amplificada para reais quando o câmbio também cede. Quem entrou no ouro pelo discurso de “hedge perfeito” descobre que existe uma variável capaz de quebrar a tese, um banco central disposto a apertar mais do que o consenso projetava.