- Payward, controladora da Kraken, receberá US$ 22 milhões da auditora Mazars
- Mazars abandonou auditoria em 2023 citando processo da SEC depois arquivado
- Setor cripto continua vulnerável sem legislação que impeça novo ChokePoint 2.0
A Kraken conquistou uma vitória rara contra os efeitos do chamado Operation ChokePoint 2.0, apelido dado pela indústria à onda de restrições bancárias e de auditoria que atingiu empresas cripto durante o governo Biden. A Payward, controladora da corretora, foi indenizada em US$ 22 milhões (cerca de R$ 113,4 milhões pela cotação atual) pela auditora Mazars, que rompeu contrato em 2023 alegando riscos ligados a um processo da SEC.
O anúncio foi feito pelo co-CEO David Ripley, que descreveu a saída da auditora como uma retirada política, não técnica. Segundo ele, não houve divergência profissional sobre os livros da exchange. A Mazars simplesmente deixou de atender uma indústria que ficou politicamente cara.
Processo da SEC arquivado sem multa
Ripley lembrou que o processo da SEC usado como justificativa pela Mazars foi arquivado com prejuízo, sem penalidades e sem exigir mudanças no modelo de negócio da Kraken. Mesmo assim, a corretora afirma que gastou anos e milhões de dólares em honorários para limpar uma imagem que reguladores nunca deveriam ter manchado.
A tese sustentada pela Payward na disputa é direta, a Mazars não abandonou um cliente-problema, abandonou um setor inteiro.
“Fomos dano colateral”, resumiu o executivo.
O valor da indenização é modesto perto do balanço da exchange, mas serve de precedente para outras empresas cripto que perderam auditores e bancos parceiros no mesmo intervalo.
Como funcionou o cerco regulatório em 2023
No início de 2023, Federal Reserve, FDIC e OCC emitiram orientações conjuntas pedindo cautela dos bancos americanos com clientes cripto. Em paralelo, o SAB 121 da SEC obrigava bancos a lançar ativos digitais custodiados em seus próprios balanços o que inviabilizou serviços de custódia bancária. Empresas como Binance, Coinbase, MetaMask, Uniswap e Ripple enfrentaram ações e cortes bancários no mesmo ciclo.
O investidor Nic Carter assinou a investigação original sobre o ChokePoint 2.0 ainda em 2023 e apontou a senadora Elizabeth Warren como uma das principais articuladoras da pressão contra auditores do setor. Donald Trump reverteu parte dessas restrições por ordens executivas em 2025, incluindo a revogação do SAB 121.
Por que a vitória não fecha o caso
Ordens executivas, porém, são reversíveis. Basta uma nova administração para revogá-las. O analista Austin Campbell alertou que o problema estrutural continua no lugar: sem reforma legislativa, agentes públicos não têm responsabilização pessoal por ações do tipo. Warren, por sua vez, já vem questionando publicamente as políticas cripto do atual governo americano.
A agenda do Congresso norte-americano ainda tem itens sensíveis pela frente. A indústria aponta o CLARITY Act, que define competências entre SEC e CFTC, como pilar contra novas rodadas de debanking. A SEC incluiu três propostas cripto em sua agenda de 2026, sinal de que a reforma pode avançar mas sem garantia de aprovação.
Repercussão para exchanges brasileiras
No Brasil, o paralelo mais próximo é a exigência de conta bancária formal para exchanges credenciadas junto ao Banco Central, dentro do processo de regulamentação da Lei 14.478/22. Corretoras locais ainda relatam dificuldade em manter relacionamento com bancos de médio porte, ainda que sem o padrão coordenado visto nos EUA. O aporte recente da Tether no Mercado Bitcoin mostra que capital estrangeiro segue disposto a bancar players brasileiros mesmo com o quadro regulatório ainda em construção.
Para investidores locais, a vitória da Kraken serve de indicador, disputas judiciais contra auditores e bancos que romperam contratos por pressão regulatória podem gerar precedentes replicáveis. O caso também reforça o risco de concentração em poucas prestadoras de serviço quando o setor cripto brasileiro amadurecer sua infraestrutura de compliance.