- Bancos poderão compartilhar vídeo de vigilância e dados cibernéticos com investigadores federais
- Transferências internacionais acima de US$ 3 mil em Minnesota terão reporte obrigatório
- Mais de 100 money services businesses já foram afetadas por operações recentes
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos escalou nesta sexta-feira o uso do sistema bancário como braço de inteligência contra cartéis e fraudes migratórias. O secretário Scott Bessent anunciou que instituições financeiras locais ganharão autorização para repassar a investigadores federais imagens de câmeras de segurança, registros cibernéticos e dados de clientes um salto na chamada vigilância eua que redesenha a relação entre bancos privados e agências de segurança nacional.
O pacote operacionaliza uma ordem executiva assinada em 19 de maio, que determina o reforço das regras de due diligence previstas no Bank Secrecy Act. Entre as mudanças, o documento exige que o status migratório do correntista passe a integrar as rotinas de Know Your Customer (KYC), ampliando de forma material o escopo de dados pessoais sob escrutínio dos compliances bancários.
Limite de US$ 3 mil mira estruturação em Minnesota
Os chamados Geographic Targeting Orders agora obrigam bancos de condados específicos de Minnesota a reportar qualquer transferência internacional a partir de US$ 3 mil cerca de R$ 15.322 pelo câmbio atual. O patamar fica muito abaixo do limite tradicional de US$ 10 mil aplicado a operações em espécie e foi calibrado para capturar o chamado smurfing, prática de fatiar valores grandes em remessas menores para escapar dos alertas.
Bessent foca em fraudes financeiras no estado desde janeiro. O Tesouro associa esquemas de fraude em programas sociais locais a redes internacionais de financiamento, incluindo conexões com o grupo Al-Shabaab. Operações recentes em fronteiras atingiram mais de 100 MSBs, após análise de um milhão de registros bancários coletados.
A FinCEN, unidade de inteligência financeira do Tesouro, anunciou ainda a migração de toda a estratégia antilavagem e de combate ao financiamento do terrorismo para um modelo descrito como “foco em segurança nacional baseado em risco”. Na prática, recursos antes pulverizados em compliance de baixo risco serão concentrados em alvos como redes de lavagem ligadas a cartéis mexicanos.
MSBs de cripto entram no centro do radar
O recado vale para o ecossistema de ativos digitais. Boa parte das corretoras de remessas e operadoras de câmbio que atuam como MSBs cruza com o universo cripto, seja ao oferecer rampas de entrada e saída em dólar, seja quando clientes liquidam remessas internacionais via stablecoins. Com cem MSBs já enredadas em ações fiscalizatórias, qualquer operação cripto-adjacente sem compliance robusto passa a operar em terreno minado.
O patamar de US$ 3 mil também acende alerta no setor. Caso o critério migre para on-ramps e off-ramps de exchanges americanas, transferências modestas poderão acionar relatórios automáticos. Chainalysis e Elliptic, parceiras de investigações, tendem a ganhar peso adicional na infraestrutura de vigilância do Tesouro americano. O comunicado oficial do Tesouro reforça a integração público-privada como pilar dessa nova fase.
Brasil já replica modelo de cruzamento de dados
Para o investidor brasileiro, a movimentação tem leitura dupla. A trilha regulatória aproxima BC e Receita, com IN 1.888 exigindo reporte mensal acima de R$ 30 mil. Consulta pública desde 2025 prevê reduzir limites e ampliar dados, incluindo beneficiário final em remessas PIX e stablecoins.
A segunda leitura é operacional. Brasileiros que usam contas em bancos americanos ou remetem valores via MSBs nos EUA para parentes e fornecedores passarão por filtros mais severos. O movimento também conversa com a agenda do Secure America Act, sancionado por Donald Trump com US$ 70 bilhões para fronteira, e reforça o cerco que já levou o Congresso a propor uma força-tarefa do DOJ dedicada a crimes cripto. Para corretoras locais com clientes que operam dólar e cripto em paralelo, o custo de compliance tende a subir nos próximos trimestres.