- Memorando entre EUA e Irã prevê 60 dias de trégua e reabertura do Estreito de Ormuz
- Bolsas sobem e petróleo recua, mas Bitcoin segue travado abaixo de US$ 73 mil
- Polymarket registra US$ 280 milhões em apostas sobre desfecho do acordo
O Bitcoinficou de fora do rali geopolítico desta semana. Enquanto bolsas e títulos do Tesouro americano reagiram em alta à notícia de que negociadores dos Estados Unidos e do Irã redigiram um memorando de entendimento para estender o cessar-fogo por 60 dias, o BTC permaneceu travado abaixo de US$ 73 mil. Nesta quinta-feira (28), a maior criptomoeda era negociada a US$ 73.331, com queda de 1,9% em 24 horas, segundo dados de mercado.
A informação foi divulgada pelo Axios entre 23 e 24 de maio. O documento vai além de um simples pacto de cessar hostilidades. Prevê a reabertura do Estreito de Ormuz sem cobrança de pedágios, autorização para o Irã vender petróleo livremente no mercado internacional e o início de conversas formais sobre o programa nuclear iraniano.
O Estreito de Ormuz concentra cerca de 20% do fluxo diário de petróleo do planeta. Liberar a passagem sem taxas e destravar a oferta iraniana explica por que o barril recuou na sessão. Para mercados desenvolvidos, é alívio direto na curva de inflação. Para o Brasil, significa pressão baixista sobre combustíveis e potencial ganho de fôlego para o real frente ao dólar, hoje cotado a R$ 5,0410.

O que está no acordo
Assim, o cessar-fogo original entrou em vigor em 7 de abril, depois de ataques americanos e israelenses em território iraniano no fim de fevereiro. Aquele anúncio, sozinho, foi suficiente para empurrar o bitcoin acima de US$ 72.700 à época, conforme operadores precificaram a redução do risco geopolítico. O movimento atual, porém, não se repetiu.
Há um detalhe que pesa: o presidente Donald Trump ainda não havia assinado o memorando até o fim de maio. Sem a chancela da Casa Branca, o documento permanece em estágio de rascunho. Vale lembrar que, no início da escalada militar entre Washington e Teerã, o mercado cripto viveu o oposto deste cenário, com liquidações superiores a US$ 934 milhões em poucas horas após bombardeios.
Por que o Bitcoin não reagiu
Além disso, a desconexão entre o BTC e os ativos tradicionais chama atenção. Nenhum protocolo cripto relevante ou altcoin de grande capitalização mostrou correlação clara com as notícias diplomáticas. O ether caiu 1,9% para US$ 2.010, o SOL recuou 1,6% e o BNB perdeu 1,7%. O comportamento sugere que o mercado cripto está sendo conduzido por outros vetores: fluxo de ETFs, desalavancagem em derivativos e expectativa para o próximo dado de inflação americana.
Há também leitura técnica. O Bitcoin opera abaixo de uma resistência psicológica relevante há semanas, e a baixa do volume à vista reforça o quadro de indecisão. Recentemente, dados apontaram que o volume spot do BTC despencou 81%, repetindo um padrão visto em 2023 — período de acumulação morna em que catalisadores externos perdem força.
Polymarket vira termômetro do acordo
Quem capturou o impacto do memorando foi o segmento de mercados de previsão. A Polymarket registrou mais de US$ 280 milhões em volume negociado em contratos atrelados ao cronograma do cessar-fogo, com forte movimentação em apostas sobre a assinatura do acordo de paz e sobre o desfecho das tratativas nucleares.
Assim, o dado mostra que a infraestrutura cripto está sendo usada como termômetro político em tempo real — função que Wall Street ainda não consegue replicar. No Brasil, esse tipo de produto opera em zona regulatória cinzenta, mas o crescimento dos volumes globais começa a chamar atenção de reguladores locais.
Risco assimétrico para os próximos dias
O cálculo de risco é desigual. Se Trump rejeitar o memorando e as tensões voltarem, tanto bolsas quanto cripto devem cair juntas. Se assinar, os ativos tradicionais já embolsaram boa parte do prêmio — e o bitcoin, que ficou parado, teria espaço para correr atrás. Os pontos de atenção dos próximos dias são a posição oficial da Casa Branca e a confirmação de que as cláusulas sobre o Estreito de Ormuz entrarão em vigor.