- Microsoft lança Majorana 2 com qubits 1.000 vezes mais confiáveis que modelos anteriores
- Glassnode aponta 6 milhões de BTC e US$ 469 bilhões expostos ao risco quântico
- Computador quântico escalável previsto para 2029 antecipa cronograma do Q-day
A Microsoft apresentou o Majorana 2, um chip quântico topológico que promete acelerar o cronograma do chamado Q-day o dia em que computadores quânticos conseguirão quebrar a criptografia que protege o Bitcoin e outras redes blockchain. O anúncio, feito durante a conferência Build da empresa, reacendeu um debate técnico que vinha em segundo plano no mercado cripto.
Segundo a companhia, o novo chip traz qubits 1.000 vezes mais confiáveis do que as gerações anteriores. Na prática, isso encurta o caminho até uma máquina quântica funcional. A Microsoft afirma que pretende entregar um computador quântico escalável até 2029, prazo bem mais agressivo do que o estimado por outros centros de pesquisa.
O salto técnico do Majorana 2
O ganho de robustez é o ponto central. A vida útil dos qubits do Majorana 2 varia entre 20 segundos e um minuto, contra frações de segundo nos modelos antigos. Pesquisadores da empresa compararam o avanço a uma bateria de celular que, antes durando 24 horas, agora aguentaria três anos com uma única carga.
Chetan Nayak, fellow técnico de hardware quântico da Microsoft, resumiu o estágio atual ao admitir que o roteiro precisa ser cumprido ano a ano.
“Precisamos entregar melhorias que nos aproximem de um computador com valor comercial e social massivo”, disse. Ele cravou, a empresa está mil vezes melhor do que estava no ano anterior.
Boa parte desse ritmo vem da injeção de inteligência artificial no desenvolvimento de hardware. Avanços em IA agêntica, segundo a Microsoft, ajudaram a derrubar barreiras de velocidade, tamanho e confiabilidade três frentes que historicamente travavam a computação quântica de uso prático.
6 milhões de BTC na linha de tiro
O impacto sobre o Bitcoin é numericamente expressivo. Levantamento recente da Glassnode aponta que cerca de 6 milhões de BTC, avaliados em aproximadamente US$ 469 bilhões, estariam expostos ao risco quântico assim que máquinas capazes de quebrar a criptografia ECDSA entrarem em operação. O cálculo inclui endereços antigos que reutilizaram chaves públicas e carteiras da era Satoshi paradas desde 2014.
O Bitcoin opera nesta quinta-feira a US$ 63.331, ou cerca de R$ 321,7 mil, em queda de 4% nas últimas 24 horas. O recuo recente do ativo aumenta a sensibilidade do mercado a qualquer narrativa estrutural e o risco quântico é uma delas. Com instituições, fundos e tesourarias corporativas concentrando exposição em BTC, a possibilidade de comprometimento criptográfico deixou de ser tema apenas acadêmico.
Governança lenta trava resposta do Bitcoin
O ponto fraco do Bitcoin nessa corrida não é técnico é político. A rede tem governança descentralizada e processo lento de aprovação de BIPs (Bitcoin Improvement Proposals). Enquanto outras blockchains já desenharam roteiros para criptografia pós-quântica, a comunidade do BTC ainda discute três frentes: o que fazer com moedas da era Satoshi, qual algoritmo adotar e como executar a migração sem fraturar a rede.
O Ethereum já testa chaves pós-quânticas para validadores usando o esquema XMSS, mostrando ritmo diferente do principal concorrente. Para o investidor brasileiro, que acessa o mercado por exchanges locais sob supervisão crescente do Banco Central e da CVM, o ponto prático é outro: a custódia institucional regulada no país segue ancorada na mesma criptografia ECDSA do protocolo original. Uma eventual migração forçaria revisão de procedimentos em corretoras, fundos de investimento em cripto e produtos listados na B3.
O Google projeta computadores quânticos funcionais por volta de 2032, mas parte da comunidade técnica trabalha com janela de apenas quatro anos. Se o cronograma da própria Microsoft se confirmar, o setor terá menos tempo do que imagina para adaptar a infraestrutura.