- DIP-10 propõe liquidar ativos remanescentes do exploit de abril em USDT
- Usuários criticam perda de exposição a SOL, ETH e BTC durante recuperação
- Fundação terá discricionariedade total sobre timing, venues e estratégia de preço
A Drift Protocol, plataforma de derivativos descentralizados construída em Solana, viu uma nova frente de conflito se abrir com seus usuários. O motivo é a proposta DIP-10, que pretende transformar todos os ativos remanescentes ligados ao exploit de 1º de abril em USDT, consolidando o saldo em uma reserva única destinada ao processo de ressarcimento.
Pelo desenho atual, a Drift Foundation receberia autorização para liquidar os tokens residuais do pool de empréstimos do protocolo. A venda criaria reserva inicial em stablecoins para futuras distribuições destinadas aos credores e devedores afetados diretamente.
A fundação argumenta que a medida elimina exposição à volatilidade enquanto o caso é resolvido. A medida simplifica a contabilidade do sistema, onde depósitos financiavam empréstimos sem qualquer segregação individualizada entre carteiras anteriormente.
O argumento técnico do pool unificado
No documento, a Drift afirma que devolver depósitos diretamente aos credores antes de liquidar as posições devedoras criaria um buraco contábil.
“Retornar depósitos a lenders antes da liquidação dos empréstimos removeria liquidez da qual outras contas dependem, quebrando permanentemente a integridade contábil do pool”, diz o trecho citado no material técnico do protocolo.
Para executar a conversão, a equipe diz que poderá recorrer a mercados spot, mesas de balcão (OTC) ou agregadores on-chain, a depender das condições de liquidez. O protocolo interromperia imediatamente a acumulação de juros, impedindo cobranças adicionais durante todo período de congelamento operacional.
A revolta pela conversão forçada
O problema, na visão de parte da comunidade, é o efeito prático, quem depositou SOL, ETH ou BTC deixa de capturar qualquer alta enquanto aguarda o desfecho. A conversão fixa o valor de recuperação no momento escolhido pela fundação, sem que o usuário tenha voz sobre o timing.
Outro ponto criticado é a amplitude do poder discricionário. A proposta deixa explícito que a Drift definirá métodos de conversão, locais de venda e estratégia de preço “a seu exclusivo critério”. O mercado teme impacto adicional: vendas concentradas de SOL poderiam pressionar ainda mais o ativo durante liquidações emergenciais.
O que isso diz sobre recuperações em DeFi
O caso da Drift reforça tendência crescente, protocolos DeFi tratam incidentes como reestruturações societárias, não processos automatizados exclusivamente técnicos. A linha entre protocolo descentralizado e administrador judicial fica difusa.
Para o investidor brasileiro, o episódio serve de alerta sobre risco de plataforma tema que ganhou peso depois que o Banco Central passou a apertar a oferta de cripto por bancos no país. Ao usar pools de lending, usuários assumem riscos ligados ao token e aos mecanismos internos de recuperação emergencial. E esse desenho, como mostra a Drift, costuma ser decidido depois do incidente, não antes.
O paralelo mais próximo é o de outros eventos recentes, como o exploit registrado na Huma Finance, em que credores também ficaram sujeitos a decisões posteriores da equipe. Em ambos os casos, a previsibilidade jurídica que existe em corretoras reguladas caso de uma Coinbase ou Morgan Stanley simplesmente não está disponível.
O exploit que originou o debate ocorreu em 1º de abril, com o protocolo sendo pausado horas depois. A votação da DIP-10 deve definir o ritmo das próximas etapas e estabelecer um precedente sobre até onde uma fundação pode decidir pelo usuário em situações de crise.