- Ação foi protocolada em 3 de julho na Suprema Corte de Nova York
- Traders cobram US$ 1 por ação Yes ligada à venda de 32 BTC pela Strategy
- Polymarket já acumula mais de 1.150 mercados contestados em 2026
Dois apostadores da Polymarket levaram a plataforma de mercados preditivos à Justiça de Nova York. William Wood e Thomas Bush protocolaram, em 3 de julho, uma ação contra a empresa, o CEO Shayne Coplan e o diretor de marketing Matthew Modabber. A alegação central: a companhia teria alterado as regras de um mercado depois do fato consumado. Isso teria acontecido para negar o pagamento de apostas vencedoras vinculadas a uma venda de Bitcoin da Strategy.
Assim, a queixa lista quebra de contrato, violação do dever de boa-fé, enriquecimento ilícito, práticas enganosas e propaganda falsa. Os autores pedem o valor de US$ 1 por cada ação Yes comprada. Além disso, solicitam indenização e honorários. A banca Burwick Law, responsável pelo caso, informou que estuda ações semelhantes de outros traders atingidos pela mesma decisão.
Venda de 32 BTC que derrubou o mercado

O contrato em disputa perguntava se a Strategy venderia qualquer quantidade de Bitcoin até 31 de maio. A empresa comandada por Michael Saylor fez exatamente isso. Em documento entregue à SEC no dia 1º de junho, informou ter vendido 32 BTC entre 26 e 31 de maio, sua primeira venda desde 2022.
Assim, o problema foi o calendário. Como o filing chegou um dia depois do prazo, a Polymarket adicionou uma nota afirmando que “confirmação obtida fora da janela do mercado não qualifica”. O contrato foi resolvido como No após votação dos detentores do token UMA.
Esse é o oráculo usado pela plataforma para arbitrar disputas. Os autores argumentam que o próprio regulamento definia as divulgações da Strategy como fonte primária. Eles dizem ainda que criar um prazo de confirmação depois do evento esvaziou a promessa de resultados objetivos. Assim, um mercado que não honra um fato comprovado, diz a petição, “não busca a verdade; ele controla o pagamento”.
Além disso, a venda foi só o começo. A Strategy anunciou um plano para desovar mais US$ 1,25 bilhão em BTC para financiar dividendos. Nesta semana, liquidou cerca de US$ 216 milhões em bitcoins dentro do programa BTC Monetization. Ou seja, o gatilho que originou a disputa virou rotina na tesouraria da empresa.
UMA e o problema do oráculo capturado
Investigações recentes da Bloomberg e do Wall Street Journal identificaram um problema estrutural na Polymarket: um pequeno grupo de carteiras grandes decide muitos resultados. Além disso, vários votantes do UMA também apostam nos mesmos mercados que julgam. O conflito de interesse é evidente. A plataforma registrou mais de 1.150 mercados contestados em 2026. Esse número já supera o total de todo o ano anterior.
A briga em torno da Strategy foi a maior desde o mercado de US$ 237 milhões sobre se o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky havia usado terno em um evento oficial. Para o apostador brasileiro que acessa a Polymarket via VPN — a operação americana é um exchange registrado na CFTC e restringe residentes dos EUA na plataforma internacional — o caso serve de alerta. Diferente de uma corretora de derivativos regulada pela CVM, não há aqui uma instância recursal clara. Quem paga é o oráculo, e o oráculo é governado pelos próprios traders.
Processo chega em momento de captação bilionária
O timing da ação é sensível. A Polymarket foi avaliada em US$ 9 bilhões na última rodada e recebeu quase US$ 2 bilhões da ICE, controladora da Bolsa de Nova York. Em abril, negociava captar mais US$ 400 milhões a um valuation de US$ 15 bilhões. A empresa ainda não se manifestou publicamente sobre a queixa.
O caso deve testar, na prática, se termos de uso e votação de oráculos descentralizados sobrevivem ao escrutínio de tribunais tradicionais. Vale acompanhar como isso dialoga com o próprio uso da Polymarket como termômetro de preço do Bitcoin, muito citado por analistas nas últimas semanas. Ou seja, se o mecanismo de resolução for judicialmente contestado, a leitura dessas odds perde peso.