- Capital B aprova €5 bi em ações e €100 bi em dívida para comprar BTC
- Mais de 95% dos votos endossam estratégia de tesouraria em Bitcoin
- Empresa francesa quer atingir 15 mil BTC até o fim de 2027
Os acionistas da Capital B, listada em Paris, deram sinal verde para um dos maiores arcabouços de financiamento já desenhados por uma empresa europeia voltada à acumulação de Bitcoin. A assembleia geral realizada em 17 de junho aprovou aumentos de capital de até €5 bilhões (cerca de US$ 5,36 bilhões) e a emissão de instrumentos de crédito de até €100 bilhões (aproximadamente US$ 107 bilhões).
Cada uma das resoluções passou com apoio superior a 95% dos votos, segundo comunicado oficial divulgado pela companhia. Participaram da votação titulares de 164.555.315 direitos de voto — 54,748% do total em circulação na data de corte.
A autorização entrega ao conselho de administração margem para emitir até 125 bilhões de novas ações, considerando o valor nominal atual de €0,04 por papel. O objetivo declarado é financiar futuras compras de BTC dentro da estratégia de elevar o número de bitcoins por ação totalmente diluída — métrica que a empresa adotou como bússola de performance, no lugar do volume total acumulado.
Da Blockchain Group para Capital B
Em resolução separada, os acionistas referendaram a mudança de nome jurídico de The Blockchain Group para Capital B. A marca comercial já vinha sendo usada desde julho de 2025, mas faltava o ajuste estatutário. A companhia se autodescreve como a primeira Bitcoin treasury company da Europa e mira, segundo seu próprio site, acumular 1% da oferta total de Bitcoin até 2033.
A meta de médio prazo é mais agressiva: 15.000 BTC até o fim de 2027. Atualmente, a tesouraria soma 3.139 BTC, após uma sequência de compras nas últimas semanas. Para chegar ao alvo, faltam quase 12 mil unidades — o que, à cotação atual de US$ 64.175 por moeda, representa desembolso aproximado de US$ 765 milhões só para alcançar o número de 2027.
No início do ano, a Capital B fechou uma colocação privada de €15,2 milhões com investidores que incluem Adam Back, presidente-executivo da Blockstream, e a gestora francesa TOBAM. Parte do dinheiro virou 192 BTC, seguidos por mais 4 BTC em compras adicionais. Em paralelo, a empresa já havia captado cerca de US$ 325 milhões em rodadas anteriores destinadas à mesma estratégia.
Crédito lastreado em Bitcoin mira investidor europeu
A aprovação dos acionistas chegou um dia depois de Alexandre Laizet, diretor de estratégia em Bitcoin da Capital B, antecipar planos para lançar um produto de crédito digital lastreado em BTC voltado ao investidor europeu. A apresentação ocorreu no evento BTC Prague.
Segundo Laizet, o instrumento se inspira em modelos já operados por Strategy (ex-MicroStrategy, de Michael Saylor) e Strive. A engenharia mira oferecer rendimentos de dois dígitos com volatilidade abaixo desse patamar. O executivo afirmou ainda que a demanda por crédito digital lastreado em cripto cresceu dez vezes em relação a 2025. Nenhuma data de lançamento foi divulgada.
Cópia do modelo Saylor com risco multiplicado
O movimento da Capital B é a versão europeia, em escala ainda maior no papel, da tese popularizada pela Strategy nos Estados Unidos: usar mercado de capitais para alavancar um balanço lastreado em Bitcoin. A diferença é a magnitude da autorização — €100 bilhões em dívida potencial superam, em valor nominal, todo o estoque de BTC hoje detido pela empresa de Saylor.
Para o investidor brasileiro, o efeito prático é indireto, mas relevante. Capital B, Strategy, SpaceX e outras tesourarias corporativas formam um bloco de compradores estruturais que tende a absorver oferta circulante e reduzir a quantidade de moedas disponíveis em exchanges. Esse efeito já aparece nos dados de holders de longo prazo da K33, com 79% da oferta retida fora do giro especulativo.
O contraponto é o risco de execução. A autorização de €100 bilhões é teto, não emissão concretizada — depende de janelas de mercado, custo de capital e apetite por dívida corporativa lastreada em ativo volátil. Em ciclos de baixa prolongada, esse modelo já mostrou pressão sobre as ações da própria Strategy. A publicação oficial da Capital B sobre as resoluções traz o detalhamento técnico de cada autorização votada.