- Warsh quer cortar balanço do Fed de US$ 6,7 tri para US$ 3 tri
- Inflação nos EUA sobe a 3,8% com guerra no Irã e tarifas
- S&P 500 negocia com P/L futuro de 21, acima da média histórica
O novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, assumiu o cargo com um plano ambicioso para enxugar o balanço do banco central americano. Mas as próprias políticas do presidente Donald Trump — que o indicou em janeiro — agora atrapalham essa agenda e ameaçam o atual ciclo de alta nos mercados.
A meta de Warsh é reduzir os ativos do Fed dos atuais US$ 6,7 trilhões para algo próximo de US$ 3 trilhões. O estoque foi acumulado entre 2008 e 2022, quando bateu quase US$ 9 trilhões em Treasuries e títulos lastreados em hipotecas. A drenagem havia começado em 2022, mas voltou a crescer nos últimos meses.
Inflação trava agenda do novo presidente do Fed
O problema é o cenário macro. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos EUA subiu 3,8% em abril na comparação anual, e analistas projetam aceleração adicional no mês corrente. A guerra no Irã pressiona o petróleo, enquanto as tarifas comerciais elevam custos em toda a cadeia produtiva.
Mesmo assim, Wall Street segue firme. O S&P 500 e o Nasdaq Composite se recuperaram das quedas de março e operam em máximas históricas. Essa força é justamente o que torna o próximo movimento de Warsh tão delicado: qualquer tropeço pode disparar uma reprecificação ampla.
A mecânica é direta. Se o Fed vende títulos longos em escala, os preços desses papéis caem e os juros de longo prazo sobem. Para suavizar o impacto, Warsh tenderia a defender cortes na taxa básica overnight. Só que o resto do FOMC não parece disposto a embarcar nesse arranjo enquanto a inflação não cede.
FOMC rachado e resistência interna
O comitê está fragmentado. O ex-presidente Jerome Powell decidiu permanecer como governador, e a divergência ficou clara na última reunião, com quatro votos dissidentes. Três deles pediram a remoção do trecho que sinalizava novos cortes de juros no horizonte próximo. O mercado futuro de juros já praticamente descartou qualquer afrouxamento adicional ainda em 2026.
A senadora Elizabeth Warren tem cobrado publicamente Warsh — inclusive sobre a venda de US$ 100 milhões em ativos antes da posse, episódio detalhado em cobrança no Senado americano. A pressão política aumenta o custo de qualquer movimento controverso na política monetária.
Impacto no Bitcoin e no mercado brasileiro
Para o investidor brasileiro de cripto, o cenário tem leitura dupla. Juros longos mais altos nos EUA tendem a fortalecer o dólar e drenar liquidez de ativos de risco — categoria que inclui Bitcoin e altcoins. O efeito já foi visto recentemente, quando o BTC recuou para a faixa dos US$ 78 mil em meio ao choque inflacionário e à escalada no Oriente Médio, conforme reportado na queda atrelada à crise iraniana.
Por outro lado, um Fed forçado a tolerar inflação persistente reforça a narrativa de reserva de valor. Não por acaso, fundos soberanos como o Mubadala ampliaram posições em ETFs spot de Bitcoin, movimento detalhado na elevação para US$ 566 milhões no IBIT. Em reais, o BTC nesse patamar significa exposição cambial relevante: cada ciclo do Fed se reflete no spread das exchanges locais como Mercado Bitcoin e Foxbit.
O S&P 500 negocia hoje com múltiplo P/L projetado de 21 vezes, bem acima da média histórica entre 16 e 17. Quanto maior o múltiplo, maior o espaço para correção quando o prêmio de risco sobe. Comunicados do FOMC mais vagos — estratégia provável de Warsh para preservar flexibilidade — adicionam ruído justamente quando o investidor mais busca previsibilidade.
O documento oficial com a composição do balanço do Fed pode ser consultado nos dados do Federal Reserve. Os próximos dados de inflação americana devem ditar a margem de manobra do novo presidente nos próximos meses.